quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Com açúcar

Passava sempre às oito. Tinha todo um gingado, parecia dançar quando andava dentro daquelas calças largas, o cabelo bagunçado e a cara ainda de sono. Eu ficava ali, sentada, a mesinha perto da porta e um capuccino pra começar bem o dia. Será mesmo que era o capuccino que fazia meu dia começar bem? Eu, com o olhar escondido por trás dos óculos, sempre observava quando o moço apressado passava do meu lado. Barba por fazer e café na mão, eu não conseguia conter o sorriso. Mas ele nunca me via. E eu, menina boba, sempre ficava os vinte minutos anteriores à sua passagem bolando alguma tática pra conseguir fazer com que ele virasse um pouquinho à esquerda, ou que ele notasse que não estava tão apressado assim pra comprar o café e ir embora, devia sentar um pouco... Ele parecia sentir e, por pirraça, decidir me torturar mais um pouquinho fingindo não me ver ali, naquele lugar tão estrategicamente visível. Até que virou rotina chegar às 7 e meia e planejar derrubar minha pasta pra ver se ele me ajudava a apanhar, todos os dias passando despercebida aos olhos de quem me fazia sorrir com mais facilidade. E como eu sorria quando ele chegava, quando ele tirava apressado a carteira do bolso e franzia o cenho por parecer não ser organizado o bastante pra encontrar a nota de dez reais com mais facilidade que as outras. Dava vontade de oferecer ajuda, jogar um "deixa que eu pago o teu, desse jeito você vai se atrasar", hora por ser boazinha, hora pra tentar uma aproximação com aquele rapaz que eu via todos os dias e sequer sabia o nome. As semanas passavam e eu sentia uma saudade esquisita dele todos os domingos, já que eu sempre acordava tarde demais pro café. Metódica que sou, nunca tinha reparado nisso, que eu levava falta na cafeteria todos os domingos. E ri comigo mesma por me pegar, na tarde do sábado, planejando acordar cedo no outro dia só pra testar. Acordei já de sorriso no rosto, coloquei aquele vestidinho florido, de tecido leve, sai com um semblante de menina feliz, prestes a ir no seu primeiro encontro, e não consegui disfarçar a decepção ao ver que já eram oito horas, que ele também não acordava cedo aos domingos, nem ia à cafeteria. Quanto burrice foi aquela minha, ele só devia ir naquela cafeteria porque era caminho do trabalho. Quanta bobagem! Se eu tivesse sido um pouquinho mais esperta, teria atentado para o detalhe de que se ele sempre está apressado, é porque ele tem um compromisso. Mas fiquei feliz. Ainda me achando deveras engraçada só pela minha infantilidade de conseguir se divertir com a perspectiva de topar ali com um desconhecido que nunca havia me dirigido a palavra. Tomei meu capuccino e fiquei, na mesma mesa, com o mesmo sorriso. Após terminar, fiquei mais um tempo sentada, tentando bolar um itinerário para a minha manhã de domingo; Que situação inovadora era aquela! E a garçonete recolheu minha xícara e deu me deu aquele sorriso de "eu sei o que você tá fazendo, moça". Senti-me desmascarada e ridícula e cômica, tudo ao mesmo tempo, tanto que lhe devolvi um outro sorriso, um dos tímidos. Pedi outro capuccino, pra levar, desta vez, com muito chantili. Quando procurei apressada o dinheiro dentro da bolsa, ouvi uma voz me dizendo que o café que uma pessoa tomava dizia muito sobre ela. Tremi ao levantar a cabeça. Tanto, mas tanto, que quase derrubo o café, a bolsa, a carteira e também me derrubo no chão. O maior dos meus sorrisos foi aquele, que eu dei quando respondi que, então, eu devia deixar muito na cara que era uma gordinha com tendências diabéticas, por tomar algo tãaao doce e tão cedo. Ele sorriu de volta e virou-se para o balcão, pedindo um expresso sem açúcar. Eu, atônita, ainda desconcertada, já estava saindo até que ele me pediu que o esperasse. Sentindo-me mais menina que nunca, esperei. Fiquei ali, brincando com a alça da bolsa, mordiscando o copo, sentindo a face ruborizada. Ele pagou o café, dessa vez parecia sem pressa:
- Sabe, pensei que eu fosse o único que acordasse cedo aos domingos. 
Eu, ainda calada, não parava de sorrir. Mal sabia o moço, que eu ainda não sabia o nome, que eu comemorava minha ousadia por dentro.
- Quanto ao seu café, não acho que seja uma gordinha diabética, só uma menina doce. 
Mais vermelha que nunca, eu virei e perguntei seu nome. Com um olhar levemente assustado, ele me disse que era Caio. 
- Então, Caio, devo concluir que você seja uma pessoa pouco observadora, prática e amarga?
- Ah, nem tanto. Só que eu sou o cara que tem vergonha de sentar na mesma mesa que a mulher aparentemente mais confiante e paradoxalmente meiga que já vi na vida. E que, ironicamente, eu ainda não sei o nome.
- Alice. 
Naquele minuto, ainda num riso, eu senti que podia ser todo o açúcar que o café preto dele precisava. 

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