quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O céu e o mar

Claro, tranqüilo, calmo. Assim tudo aparentava estar. Eram seis da manhã, acordou cedo ou talvez nem dormiu, se sentia bem. Uma leveza estranha, uma sensação de que as coisas ainda poderiam dar certo, que ainda poderia haver uma esperança. Pena que tudo se esvaí tão rápido quanto vem, pena que nada de positivo tem força o bastante para lidar com um pessimismo forte como o dele.

Queria parar no tempo, não mais pensar em suas angústias costumeiras que tanto lhe consumiam. Não queria mais morrer, de fato. Ele pensou em continuar. Deixar as coisas irem, tomarem seus rumos. Era difícil, mas ele estava disposto a mudar. Sua intuição julgava identificar uma mudança. Ainda mais que há tanto tempo não havia mudanças em sua vida.

É pena também ele nunca ter sido dono de uma intuição leal, digamos assim. Não podia criar expectativas, era do seu eu. Não podia se trair, e infelizmente se via sendo traído por si próprio. “Por que estou sorrindo?”, se perguntava e não encontrava a resposta. Mas daí começou a repensar tudo que vinha acontecendo e viu que a resposta era tão clara quanto a brisa invisível que lhe passava pelo rosto.

Foi ela. É ela. Finalmente ele abriu os olhos e reparou o que lhe trouxe aquela atmosfera mágica e confusa. O céu se apaixonara pelo mar. Difícil, complicado, sim. Difícil e complicado, mas real. O mar lavou as marcas ruins do céu e ele estava disposto a amanhecer cada vez mais lindamente. Cada vez mais cheio de graça.

O céu mudou de cor ao encontrar o mar, é fato. Mas infelizmente essas mudanças bruscas e aparentemente felizes nada de bom têm a os oferecer. O céu ia sofrer, o mar nem tanto. O mar estava preparado pra encarar tudo friamente, o céu se via corrompido e imerso na ilusão de que tudo ficaria bem, de que tudo estava bem.

Pobre céu, sempre pensando tanto no mar. Por que as coisas tinham que acontecer dessa maneira? O céu que estava claro agora se enchera de nuvens, vinha ficando cada vez mais escuro. Quanto mais próximo do mar se sentia, mais aparentava estar preparando uma tempestade. Era tudo uma tentativa frustrada de conseguir tocar o mar, por mais breve que aquele momento fosse.

Conseguiu, seus pingos de água se encontraram com a imensidão do mar no mesmo instante que ele reparou que jamais havia reciprocidade naquele sentimento. O mar não conseguiria subir até o céu, só o vapor que enchiam aquelas nuvens de um sentimento tão bonito e incerto não seriam prova de que aquela loucura daria certo.

Não daria certo, nunca daria certo. Chegou a hora do céu abrir novamente e não mais se envolver nessa história que só lhe traria uma futura desilusão. Ao parar para pensar melhor no assunto, depois de se ver claro novamente, ele notou que era incapaz de amar. Ele e ela não ficariam juntos. O céu e o mar não poderiam ficar juntos. Por mais que tentassem, por mais que quisessem. Amor só é amor quando se é dado e recebido na mesma quantidade, e isso não era capaz de se desenvolver apenas por culpa dos planos de uma mente apaixonada e muito provavelmente entorpecida.


"Meu coração bate como um pandeiro num samba dobrado".


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A via láctea


Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz...
Mas não me diga isso...
Hoje a tristeza
Não é passageira
Hoje fiquei com febre
A tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela
Parecerá uma lágrima...
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza
Das coisas com humor...
Mas não me diga isso...
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?...
Eu nem sei porque
Me sinto assim
Vem de repente um anjo
Triste perto de mim...
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim...
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho...
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser
Quem eu sou...
Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim...
Não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim...


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Desculpas de perdedor (versão enumerada de 1 a 20)

1. Ah, gente. É que deu uma dor-de-cabeça na hora da prova, juro que se não fosse por isso tinha feito bem mais... é que sabe, né?

2. Eu tinha acertado 78249 milhões de questões, mas é que marquei errado no gabarito, aí já viu. É que eu tava me garantindo tanto, que quando fui passar pra lá nem prestei atenção. Hehehehe

3. O problema todinho foi que eu fiquei muito cansada da viagem, aí não rendi tanto na prova e tal.

4. Acertei um mooooooontão, mas corre o risco de eu não passar porque o curso é alto, sabe? Não que eu não seja capaz, é, enfim, rs.

5. Menine, que tinha um barulho infernal na minha sala, nem consegui me concentrar na prova, tão fácil que a prova tava.

6. Não acertei muitas, mas é que tava difícil, né? SUOAISUAIOSUAIOU ‘

7. Meus concorrentes são muito fortes, não que eu seja fraca.

8. O fiscal da sala implicou comigo, não deixou fazer a prova, acredita? Tive que sair marcando aleatoriamente no gabarito, nem vi a prova. /cry

9. É que não era isso que eu queria, sabe? HAHAHAHA, nem estudei, pow.

10. Se eu tivesse estudado, rapá. Uma prova fácil dessas não é todo ano, não. Uma pena eu não ter ficado preocupada e tal.

11. hihihih, é que não deu tempo, hahahaha, sabia de tudo, hehehe, mas nem deu tempo, ó.

12. Geeente, fiz a prova de porre, acredita? Por isso que não fui bem, senão tinha fechado geografia, história, química, física, biologia, matemática e errado só uma em cada uma das outras. Ahuehauehuahe

13. Foi o nervosismo.

14. Foi a paciência.

15. Foi culpa do professor.

16. Foi culpa da concorrência.

17. Mas eu sou tão novinha ainda, passo no próximo.

18. Cheguei atrasada e perdi a prova, HOHOHO

19. Não passei porque não quis.

20. CURSINHO TEM TODO ANO, NÉ? :D

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Então, agora peço a vocês, queridos leitores, para me dar um conselho: Qual dessas fica mais adequada para eu dizer aos meus pais quando o resultado sair? HAHAHAHA, me arrasei, cara!

domingo, 13 de dezembro de 2009

é uma pena, é tudo fruto da minha imaginação. /semata

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Há toda uma interligação. Se meu presente fosse bom, não pensaria tanto no passado, nem teria uma expectativa tão negativa do futuro. Talvez eu nem pensasse tanto assim no futuro, talvez eu vivesse realmente o que há para ser vivido. É confuso... toda essa nostalgia, toda essa falta, esse vazio existente em mim e, principalmente, todo esse desconhecimento, toda essa vontade de descobrir o motivo do forte descontentamento. O que está errado? Tudo? Nada? Qual o foco da questão? Eu não sei. Eu, sinceramente, não sei. Esboços de epifanias me vêm à cabeça, se desfazem tão logo eu percebo sua presença. Não agüento mais.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Comigo


"Quando o sol se vai, a lua amarela
Fica colada no céu, cheio de estrela
Se essa lua fosse minha
Ninguém chegava perto dela
A não ser eu e você
Ah, eu pagava prá ver
Nós dois no cavalo de ogum
Nós juntos parecendo um.
Na lua, na rua, na nasa, em casa
Brasa da boca de um dragão...
Você vai comigo aonde eu for
Você vai bem, se vem comigo
Serei teu amigo e teu bem
Fica bem, mas fica só comigo.
Quando o sol se vai a lua amarela
Fica colada no céu, cheio de estrela
Se essa lua fosse minha
Ninguém chegava perto dela
A não ser eu e você
Ah, eu pagava prá ver
Nós dois no cavalo de ogum
Nós juntos parecendo um...
Na lua, na rua, na nasa, em casa
Brasa da boca de um dragão."

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Só porque eu acordei com vontade de dar um abraço bem apertado em Joseph. E quando liguei o som com essa música, não me veio outra pessoa em mente.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

2:48 am

Ela acabara de acordar no meio da madrugada e só agora percebia que ainda estava com o mesmo vestido que saíra ontem à noite.

As imagens voltavam aos poucos, ela ainda se situava no espaço real, mas os flashes das lembranças do dia anterior não lhe saíam da cabeça.

“Que horas são?” pensou. Então se virou para o lado da mesinha de cabeceira, onde o relógio estava; ao fazê-lo, bateu a perna esquerda em algo que estava sob a cama. Um porta-retrato talvez? Decidiu que seria melhor se levantar, acender a luz e ver o que havia derrubado. Mas a cabeça lhe doía tanto que resolveu descansar mais um pouco.

Uns dez minutos depois se levantou, e ao colocar os pés no chão viu que o mesmo estava tomado por papéis. Ligou a luz. A cama estava repleta de restos de fotografias (agora rasgadas), um porta-retrato quebrado no chão de um lado da cama e do outro inúmeras cartas jogadas. Inúmeras juras de amor eterno, o tipo de “amor eterno” onde a eternidade acaba no meio do percurso.

Então ela chorou. Mais uma vez ela chorou. Lembrou do rosto dele. Lembrou porque estava tudo bagunçado daquele jeito. Lembrou porque sentia seu frágil coração tão pequeno e apertado. Por fim: lembrou o quanto o amava.

Ela o amava, ele talvez também a amasse. Mas isso não mais era bom. Para nenhum dos dois. Tudo estava acabado entre eles. Cada vez mais a saudade se fazia presente, mas de que adiantaria continuar insistindo num erro?

O destino já havia provado por A mais B que eles não deveriam ficar juntos, por mais que o quisessem. De nada adiantava a fé em tanto amor se a vida não os presenteou com a sorte.

Triste ter que admitir que eles chegavam ao ponto mais crítico de um coração apaixonado: aceitar que as paixões podem, sim, ser passageiras; que não dá mais; que por mais que nós amemos uma pessoa, não podemos deixar que esse sentimento tire de nós a racionalidade.

E foi aí que decidiram romper aquele relacionamento. Ela estava profundamente triste com aquilo tudo, mas sabia que nada podia fazer para mudar aquela situação que já se tornara irreversível. Sabia que aquela realmente era a hora ideal para abrir mão de um amor que só a trazia sofrimento e angústias.

Ela sentou na cama novamente, sentia os ossos quebrados. “Um mais um é bem mais que dois”, repetia mentalmente, de acordo com o que sua outra metade a tentava convencer que ela, SOZINHA, poderia ser mais que dez, cem, mil...

Pegou então o porta-retrato que anteriormente havia deixado cair no chão. Admirou a foto por uma fração de segundo. Com passos rápidos se dirigiu até o banheiro, ainda com a fotografia em mãos.

Chegando em frente ao espelho, sorriu para seu reflexo sutilmente. Sentiu-se estúpida por um instante, teve vergonha de si. Olhou para seu reflexo mais uma vez, e comparou sua expressão atual com a daquela imagem que via dentro daquele retângulo de vidro trincado. Teve uma certeza: “Nunca mais vou ser feliz de novo”.

Voltou ao quarto, tirou tudo que estava em cima da sua cama, jogou os pedaços de cartas, fotografias, vidro quebrado e todo esboço de alegria que lhe restava, dentro do cesto de lixo. Desligou a luz, deitou-se calmamente, adormeceu com a esperança de não mais acordar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aviso prévio

- Alô? (...) Olha, amor, eu sei que você está aí, então me atende, por favor. Tenho tanta coisa pra contar, tanta coisa pra saber... Tem sido tão difícil para mim depois que você foi embora. Sabe que até aquele filho seu, que eu tirei, eu senti falta essa semana? Só agora eu reparei que não devia ter abortado, aquela criança serviria ao menos de lembrança de você, ou até mesmo de companhia pra mim agora! Eu te mandei algumas cartas nesses últimos meses, todas voltaram pra mim, e só depois eu percebi que o endereço de destinatário que eu havia posto era o meu próprio, como se você morasse aqui. De fato, mora. Mora aqui, sim. E eu fico só esperando o momento em que você vai entrar pela porta dos fundos, com a chave que você deixa escondida debaixo do tapete da entrada, sem precisar nem me chamar; e eu, então, vou olhar pra você e dizer: “nossa, amor! Que demora, foi comprar ou fazer o pão?” e você vai rir e me beijar. (...) Mas não, se ao menos eu ainda tivesse aquele filho, aquele pedaço seu e meu num só corpo que não chegou nem a ser formado. Sabe, eu comecei a freqüentar assiduamente meu psicólogo, só que mais tarde ele me explicou e tentou me convencer que um psiquiatra seria mais indicado a mim. Nunca entendi exatamente o porquê, ele sempre falava na minha depressão profunda, derivada de minhas desilusões contínuas e de alguns complexos que eu nem ao menos tentei decorar os nomes. Mas acho que ele estava equivocado, porque eu to bem, amor, eu to feliz, eu só estou um pouco só. Eu acabei indo ao psiquiatra, e até gostei bastante dele, ele me passa uns remédios que me acalmam, que me fazem esquecer um pouco de você... de você e daquele filho, do nosso filho, que não chegou nem a nascer. Ah, amor, eu falo tanto de você e daquele filho, do filho que eu não tive! Falo pro psiquiatra, pro psicólogo, pras pessoas que encontro na rua, nos ônibus, nos bancos das praças, nas mesas de bar. Eu parei de tomar Martini rosé, amor. Lembra que você falava que era ruim, lembra? Então, eu parei de tomar. Eu não gostava mais de ver aquela cor, não suportava mais aquele vermelho. Aquele vermelho que me lembrava do nosso filho, sabia que o chão do meu banheiro parecia Martini? Uma duas ou três garrafas de Martini derramadas, mas não era. Era só a mistura do meu sangue, do nosso sangue, do sangue do nosso filho, derramado e misturado com a água que caia do chuveiro. A água do chuveiro que escorreu sobre mim por muito tempo, mas não tempo o bastante pra fazer de mim menos suja. Nossa, amor, nem te falei! Naquele dia alguns dos pedaços do nosso filho ficaram ali no banheiro, eu até distingui uma mãozinha ali no meio, parecia com a sua, amor! Nosso filho ia ser tão lindo quando você, sabia? E ele me faria companhia assim como você me fez, e depois me deixaria sozinha assim como você me deixou. Desculpa, amor! Eu não quis dizer isso. Você não me deixou sozinha, deixou nosso filho comigo... e eu o matei, amor. Me perdoa por ser uma assassina? Depois eu peguei nosso filho do chão e joguei no lixeiro perto da garagem, lá fora. Eu segurei a mãozinha dele ainda, tão pequena que se perdia dentro da minha. Deus vontade de guardar, amor, tanta vontade de por ele de volta dentro de mim. Aquele pedacinho que me restava de você. Eu deixei o que sobrou do nosso filho no lixeiro, como um resto de comida estragada, ou como um objeto quebrado e sem utilidade. Deixei sua única lembrança concreta lá fora, no lixo. Mas normal, amor! Depois eu entrei, liguei a TV, e chorei. Não Martini rosé, dessa vez foi um dry Martini, com vodka. Muita vodka. Era forte e me deixou bem tonta, assim como a vodka me deixa. Era um choro tão transparente, mas tão impuro ao mesmo tempo. Pude me embriagar de tristeza naquela noite. Dormi profundamente e acordei com tanta dor-de-cabeça, realmente eu chorei dry Martini... e com mais vodka do que eu pensava. Amor, eu vou ter que desligar, preciso comprar meus remédios, e sabe? Acho que quero ver minhas mãozinhas soltas, assim como eu vi as do nosso filhinho (que lindas que seriam as mãozinhas dele), mas eu sou tão covarde, amor! Eu não dei calmantes, analgésicos, nada, antes de matar nosso bebê. Eu apenas o matei, friamente. Ele deve ter sentido tanta dor, amor. Mas não, antes eu vou tomar remédios que garantam-me força quando eu ver minhas mãos soltas. Mas amor, me faz um favor? Liga pra alguém, avisando que venha me buscar e que me jogue naquele lixeiro perto da garagem, lá fora, ta? Você me jogou no lixo na hora errada, amor. Volta agora e me joga no lixo certo! Eu vou encontrar nosso filhinho agora, ele já deve ta grande, parecido com você. Depois, se quiser nos encontrar, solta suas mãozinhas e pede pra alguém te jogar lá, tá, amor? Nós seremos uma família feliz, e eu não mais estarei sozinha. Te amo, amor. Adeus.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pombal, 24 de outubro de 2009

Eu acordei cedo hoje, não por falta de sono, mas por falta da paciência necessária para dormir tranqüila. Amanheci um pouco nervosa, talvez por conseqüência do dia decadente de ontem, continuo confusa, insegura e cheia de paranóias.

Tenho refletido bastante, e isso me faz um mal danado. Queria controlar, mas não dá. É que eu cansei de gente, que com quase meio século, não nota que as pessoas têm defeitos. Por melhor que sejam sempre têm defeitos, mesmo as que escondem, que mascaram, ninguém consegue estar sempre bem, sempre certo, convicto e pronto pra agüentar o que impuserem.

Eu queria compreensão, só isso. Eu sei que não é pedir demais, só um pouco de gratidão, talvez. De calma, um pouco menos de estresse, um pouco menos de “passar tudo na minha cara”, eu não tenho nem duas décadas de vida e já fui capaz de reparar que ninguém é perfeito, mas por que os outros também não notam, por que diabos não notam?

As palavras pesam. Machucam, ferem e marcam. Eu vou guardando tudo, calada. Faço de conta que não ouço, mas não dá. Sempre quis prestar, tentei de todas as formas possíveis, mas ninguém reconhece. Isso desmotiva muito, e minha máscara de pseudo-felicidade não suportará por muito mais tempo.

É triste ter que fazer pose de que tudo está bem, entretanto, mais triste ainda é te verem com o rosto vermelho e inchado de tanto chorar e não notarem nem isso em você. Passar despercebida até nesses detalhes, num lugar onde todo mundo julga te dar atenção, mas que atenção seria essa? Pagar escola, roupa e comida agora virou sinônimo de amor? De amar? Eu que pensava que esse verbo ia mais além, doce ilusão.

“Eu não queria estar morrendo pela vida”, mas estou. A cada dia com mais intensidade. Talvez eu já tenha morrido e esteja só esperando cair, estou preparando meu próprio funeral e este é o estado mais decadente que uma pessoa é capaz de chegar.

Criticam tanto as minhas asas curtas, quase incapazes de voar, mas não notam que suas longas e belas asas são ainda mais frágeis que as minhas. Uma pontada de bom senso não cairia mal.

Só tenho pena de mim, da “vida inteira que poderia ter sido e não foi”, da saudade que eu sinto do que eu poderia vir a ser.

Sem mais.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Encantador de serpentes

"Hoje aconteceu uma coisa engraçada, que atestou mais uma vez a minha incoerência comigo mesmo. Vivo imaginando que de repente vão aparecer fadas ou gênios na minha frente para perguntar o que eu desejo. Hoje pensei sério: se me perguntassem o que mais desejo na vida, não saberia responder. Quero tudo. Mas esse “tudo” é tão grande, tão vago, que me sinto estonteado. É preciso ir limitando meu sonho, apagando a linha supérflua, corrigindo as arestas, até restar somente o centro, o âmago, a essência. Mas qual será esse centro, meu Deus, que não encontro?
Sinto-me terrivelmente vazio. Há pouco estive chorando, sem saber exatamente por quê. À vezes odeio esta vida, estas paredes, essas caminhadas de casa para a aula, da aula para casa, esses diálogos vazios, odeio até este diário, que não existiria se eu não me sentisse tão só. O que eu queria mesmo era um ombro amigo onde pudesse encostar a cabeça, uma mão passando na minha testa, uma outra mão perdida dentro da minha. O que eu queria era alguém que me recolhesse como um menino desorientado numa noite de tempestade, me colocasse numa cama quente e fofa, me desse um chá de laranjeira e me contasse uma história. Uma história longa sobre um menino só e triste que achou, uma vez, durante uma noite de tempestade, alguém que cuidasse dele. Uma história longa sobre um menino só e triste que achou, uma vez, durante uma noite de tempestade, alguém que cuidasse dele. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outra dose de desilusão

Não é segredo pra ninguém que o ser humano anda em estado de decadência psicológica, alguns até acéfalos eu diria que são. Mas acredito que a pior forma de demonstrar o quão ridículos são é imitar os outros. E digo mais, imitar os outros e se sentir bem, quiçá orgulhosos disso.

Quando não somos vítimas destas “demonstrações” tudo é “muito bonito, obrigada.”, mas a partir do momento que somos tirados como o modelo a ser seguido (ou talvez nem tudo isso, talvez só o alvo da vez, da semana, do dia, enfim...), isso passa a nos preocupar/estressar de forma assustadora.

Não tem coisa pior do que você ver aquilo que você passou a vida inteira construindo (lê-se: a semana inteira, rs) sendo usado por uma pessoa que não sabe nem do que se trata, sem condições. Fora os ciúmes, devido ao apego desenvolvido por aquilo, para um usurpador chegar e querer “tomar” aquilo de você.

Eu não quero me estender mais nesse assunto, ele me fere profundamente. E, diga-se de passagem, hoje sofri a maior decepção da minha vida. Justamente relacionada aos idiotas que não têm capacidade de criar suas próprias idéias, desenvolver suas próprias teorias e aprofundar seus conhecimentos à cerca de determinado assunto , e se aproveitam de você (exatamente, caro leitor, de VOCÊ) e de tudo aquilo que você formou, lutou, aprendeu e sofreu pra ser alguém na vida. Ou melhor, acreditar que são alguma coisa, que prestam.

Pelo menos levo a certeza de que realmente sou superior. Mando um beijo aos meus queridos fãs, e queria muito que soubessem que isso só me ajuda a desenvolver-se cada vez mais maravilhosa e lindamente.


Sem mais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Extra, extra! Notícia de última hora. Hoje é dia de comemorar (ou não), finalmente cheguei a minha grande descoberta: Sou o traje de gala da Srta. Solidão. HÁ!

Bem, se não o for, ela tem andado bastante mal vestida, principalmente à noite, tendo em vista que uma espécie de "desilusão noturna" tem chegado em mim de forma cada vez mais freqüente.

Logo a noite... a noite, a menina dos meus olhos, me desapontando, ou, diga-se de passagem, me apontando dessa forma. Tristeza hoje é meu sobrenome.

Just to keep things out of mind (…)

I’m a thief that just been caught,

and I don’t find it funny anymore.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Alguém me tira uma dúvida?

Qual a melhor forma de cometer suicídio?

a) Contratar alguém para matar você.
b) Tomar remédios tarja preta.
c) Tiro na cabeça, mermão.
d) Enforcamento no banho.
e) Se afogar na pia.
f) Algo mais sofisticado, como subir na torre da igreja, cortar os pulsos, escrever o motivo da morte com o sangue na parede, bater o sino três vezes e se jogar.

Quem tiver a resposta, por favor, me comunique. Mas o faça de preferência antes de o próximo sábado, dia três de outubro. Acho que é melhor me suicidar que morrer de um desgosto, não é verdade? rs

Sem mais.

terça-feira, 22 de setembro de 2009



Em homenagem ao meu querido peixe: Peixito (in memorian), e entrada de Adolf Peixoto, meu novo peixe, em minha vida.

Queria declarar aqui a falta que sinto do meu pequeno Peixito, eternamente no meu coração e memória, que mesmo após sua morte continua tendo um papel fundamental na minha formação e no ser humano que sou hoje.

Mas agora é hora de seguir adiante, e nenhuma forma melhor de o fazer do que comprar um novo peixe. Adolf Peixoto: SEJA MUITO BEM-VINDO À MINHA VIDA.

Sem mais, rs



domingo, 20 de setembro de 2009

Eu não gosto de romances. Nem de ler, nem muito menos de escrever. Não digo qualquer romance, mas sim aqueles melosos demais, cheio de drama demais, entende? Mas assim, numa aula de física, quando se tem tempo para pensar em tudo, menos daquilo que se vê no quadro, a gente apela para a primeira coisa que vier à cabeça. Enfim, vou deixar de arrodeios e pedir desculpa, antecipadamente, a todos aqueles que perderem seu precioso tempo lendo isso. Boa tarde!

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O dia em que a lua brilhou mais que o sol

Ela chorava sozinha havia muito tempo. Ele, por ironia do destino, também estava lá e também chorava sozinho há muito tempo. E, como que por coincidência, estavam lá, os dois. Só os dois, além do vazio, da escuridão. Chorando sozinhos há muito tempo.
Ele a ouviu gritar, se perguntava se realmente alguém gritara ali, ou se era fruto da imaginação. Não o era. Ele correu para o lado de onde ouvia a voz. Viu, realmente, que Ela estava ali, mas não conseguia entrar no cômodo.
Ficaram alguns minutos se entreolhando através do vidro da janela, tentavam ver os contornos um do outro, tendo em vista que estava escuro e a única luz que lá havia, era a luz da lua que entrava por uma brecha, onde um dia existiu uma telha. Era como se vissem além do externo. Já se conheciam, sem saber de onde, sem saber como, mas sentiam como se fosse verdade. Embora não tenham proferido uma palavra sequer.
Não exitou. Ele quebrou a janela e foi para onde ela estava, o lugar de onde vinha a luz. Se olharam por um longo espaço de tempo, até que ela o abraçou. Seus olhos encheram de lágrimas novamente. Dessa vez Ela quebrou o silêncio:
- Obrigada. Por estar aqui e por estar comigo.
Ele a abraçou mais fortemente, tinha o coração acelerado.
- Eu queria olhar as estrelas ao seu lado hoje.

Ela não disse mais nada, mas pensou em dizer que queria olhar as estrelas com ele não só naquela noite. Se conteve. Pouco depois o despertador tocou, era hora de acordar e ir pro trabalho. Não sabia se ria ou chorava, só sabia que tudo não passara de um sonho.


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Pra declarar minha saudade



"Fiz uma cançãoPra declarar minha saudade Do tempo em que a alegria dominou meu coração.Eu era bem felizMas desabou a tempestadeLevando um lindo sonho pelas águas da desilusão."



Interessante que vivemos em busca da felicidade, a pomos sempre em primeiro plano nas nossas vidas, sonhamos todas as noites que, um dia, tudo dará certo e mesmo assim, nem ao menos sabemos definí-la.
Não gosto de viver de incertezas, não gosto de incertezas (embora seja rodeada por elas a cada segundo) e afirmo, sem medo de estar errada, que desisti de ser ''feliz'' e que, sinceramente, tenho duvidado bastanta da existência da felicidade em si. Digo, da pura e plena, entendes? Daquela que quando a gente é criança (muitas vezes até quando se é adulto, rs) julga ter.
Mas isso abre margem pra um questionamento gigantesco, concorda? Como podemos nos afirmar pessoas felizes, se nem ao menos sabemos definir o que seria a felicidade? Otimismo? Não, não creio que seja o caso. Acho que BURRICE define melhor.
(O que é perceptível quando se observa o nível do intelecto de quem assume tal posição, há!)
Queria lapidar melhor esse meu lado, mas acho difícil. Assumo que as vezes minhas palavras soam de uma forma mais forte do que eu queria, mas não posso fazer nada. Essa é a minha opinião, porra! Felicidade pra mim é sinônimo de ilusão, e pronto! Acabou!
Lembro-me que já acreditei na mesma, depositei todas as minhas fichas nela. Vivi momentos que qualquer pessoa chamaria de ''felizes'', mas eu prefiro chamar de ''eufóricos'' (condiz mais com os fatos). Sou a prova viva de que é tudo coisa da nossa cabeça, estado de espírito etc.
Eu tinha tudo para ser consideravelmente feliz, e o que eu sou, afinal? Um verme. Uma adolescente de 17 anos, que acha que porque tem um nível de cultura mais evoluído do que os que a cercam, é alguém. Mas não sou, já reparei isso melhor do que deveria.
Queria declarar minha saudade mesmo, sabe? Morro de saudade do meu tempo de alienação, onde eu achava que era feliz, onde eu achava que era alguém. Jogo a humildade de lado, e assumo: Meu sonho era ser burra. (hahahaha)

Já imaginou como é fácil ser apenas mais uma criatura sem pensamento próprio, sem opinião formada, sem tempo para devaneios e filosofias mal-fundamentadas? É moleza, cara... Era o que eu precisava. Mas eis que cá estou, e diga-se de passagem, minha situação já é irreversível.
Acho o cúmulo da prepotência esse meu jeito, até quando eu quero expor o que realmente penso sobre mim, venho com essas máscaras, essas personagens que há tanto enceno maravilhosamente bem, eu não aguento mais isso, eu não me aguento mais. Eu queria parar, eu tenho que parar.
Não aguento, não mais.


Setembro, meu bom setembro.

Parece que, afinal, o meu mês dos dias gloriosos não mais existe. Pode ser que o tempo tenha mudado, que as coisas estejam mudando... Ou que eu tenha mudado, ou que eu esteja mudando.

Eu, um dia, cheguei a acreditar que a esperança me guiaria aos meus objetivos. Definitivamente: eu não sou a mesma.


"e aquele garoto, que iria mudar o mundo, MUDAR O MUNDO, agora assiste a tudo em cima do muro."

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Cheguei ao extremo da minha humildade ao te escrever isso, sua biscate. Não gosto de assumir que preciso das pessoas. Não quaisquer pessoas, mas de você, em especial. Porém, que a verdade seja dita: Te amo, irmã!

Lá vem ela, sorriso na alma e na cara. Morena do gingado forte, morena do gingado bom. Todos observam seus passos como quem assiste a uma peça. Até porque, só de olhar já se vê nela uma artista. Além de linda transmite uma positividade incrível a todos que a rodeiam.

Lá vem ela, toda animada. Até quando anda mal, está bem. Vê o lado bom das coisas. Um tipo de pessoa que não se encontra hoje em dia tão facilmente. Dona de uma ingenuidade bela, mesmo em meio à malícia a qual a moça é dona.

Lá vem ela, e cá estou eu. Esperando a morena chegar para animar ainda mais meus dias. A paz, o cais, o meu cais. Minha amiga, minha irmã. Minha Criatura Indispensável. Sem ela nada sou.

Lá vem ela, eu fico só a observar. És dona de minha admiração e do meu afeto. Acima de tudo quero sempre sua presença. Meu lado otimista, meu braço direito. A ti, eternamente serei grata.

Mas só pra encerrar: Morena, vem comigo, vamos sambar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A história a seguir eu escrevi numa noite nada interessante e feliz, foi uma das primeiras coisas que pus no papel. Espero que desconsiderem a forma infantil cujo o tema foi abordado, mas foi a melhor forma de expor o que sentia no momento que eu tive. Infelizmente, minha mente não condiz muito com o que eu escrevi. Mas de qualquer forma, aí está. Sem mais.
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Não tão distante assim.
- Boa noite, Vovó. – disse a pequena Beatriz ao entrar na sala.
- Boa noite, Bia! – sorri.
- Qual história a senhora vai me contar hoje? – perguntava, entusiasmada, a garota.
- Hum.. a de hoje é interessante, hein? Sobre uma coisa que existia quando eu tinha a sua idade, mas infelizmente, hoje não existe mais. – suspirei tristemente.
- E que coisa seria essa? Algo ruim?
- Não, minha querida... Não. Coisa boa, muito boa, por sinal. Mas não conheci tanto disso, quando eu nasci, já estava acabando, vinham as últimas remessas. Mas ainda deu tempo de eu sentir um pouco, de eu saber um pouco, até de eu guardar um pouco. – disse nostálgica.
- Qual o nome dessa ‘coisa’ ? – a menina parecia assustada.
- Amor. – eu disse, enfim.
- Amor? Esse nome não soa bem... Alguma coisa me diz que a senhora mentiu quando falou que era coisa boa. Isso é... estranho! No mínimo! Do que se trata essa palavra?
- Não me espanto em você o desconhecer. Hoje em dia ele não anda mais à solta por aí. As pessoas, no meu tempo, trataram de destruí-lo, aos poucos, e por culpa disso, a geração de vocês desconhece o termo.
- Ah, não sei não, viu? Ficastes estranha ao tocar nesse nome.
- O amor era um sentimento. Mas sentimentos como ele não são mais vistos já faz um bom tempo.
- Sentimentos eu sei o que são... Tristeza, raiva, melancolia... É isso, né?
- Mas esses são só os sentimentos ruins, o amor não era um deles. Ao contrário. É difícil, ou melhor, impossível te explicar ao certo o que seria. Era um sentimento de afeto que antigamente as pessoas desenvolviam por algo, ou alguém. Um gostar, sabe?
- Vovó, não use esses termos. Eu os desconheço. Afeto? Gostar?
- Minha querida, afeto é quando você sente um carinho por uma pessoa, uma vontade de estar ao seu lado, fica bem em sentir sua presença. Gostar é mais ou menos isso também.
- Nossa, que coisa estranha! Deve ser ruim isso de você querer estar sempre perto dos outros. Que nojo! Invasão de privacidade até, eu diria. Eu acho que não sinto isso por ninguém, não. Ainda bem.
- É. Também não me espanto de você achar isso. As coisas mudaram, e realmente não é nada normal se gostar de alguém hoje em dia. Eu antes gostava, sentia afeto, e até amor, pelas pessoas. Mas hoje em dia a maioria delas me assustam.
- Hum hum – a menina parou, e pensou – Mas vovó, me explica direito o que é o amor, eu ainda não entendi.
- Bom... Antigamente, também existia uma coisa chamada amizade.
- Ai ai, lá vem você com esses nomes estranhos de novo, pára com isso! – interrompeu a garota – O que seria ‘amizade’ ?
- Amizade, assim como amor, não é um termo que dê para ser explicado. É como um afeto também. As pessoas que a mantinham entre si, eram chamadas de ‘amigos’. – eu ri brevemente – Quanto tempo que eu não pronunciava essa palavra.. Amigo.
- Eu não to entendendo mais nada! – disse freneticamente.
- Eu tinha uma amiga, querida... Uma não, duas. Nós sempre estávamos juntas, gostávamos de estar juntas, riamos bastante, dançávamos, gritávamos, pulávamos... Era tudo tão diferente das coisas de hoje em dia. Naquele tempo, as pessoas tinham muitos amigos. Nós éramos, de certo modo, já uma exceção, por sermos poucas. Eu conheci gente, que chegava a ter até 10 amigos, dá pra acreditar?
- Que horror! Eu acho que eu não tenho nenhum amigo, nem quero ter. Que coisa mais chata isso de ‘grudar’ nos outros. Eu, hein!
- Não fique assim, nem diga isso. Hoje em dia a amizade também se extinguiu. Há uma década mais ou menos, foram embora os últimos esboços de amizade que ainda pairavam pela terra. Meus amigos morreram. Minha família, pela qual eu também tinha um grande amor, também morreu. Eu só tenho você, e seu pai. Vocês são minha família agora. E eu creio, que por ser a mulher mais velha do planeta, eu seja a única que ainda ame. Pois eu amo vocês.
- Vovó, acho que a senhora ta velha mesmo. Isso de amor, amizade. Que coisa mais esquisita. Acho que você está enlouquecendo. Vou falar com o papai pra te colocar num asilo, lá eles vão te medicar, e cuidar de você até o dia da sua morte.
- Faça o que bem entender, minha querida. Eu não faço mais questão de estar viva, de todo modo. Melhor seria se morresse, infelizmente cá estou. Mas antes, permita-me continuar a história.
- Certo. Termine-a, então.
- Bem, é uma história que aconteceu comigo. Eu tinha um pai, uma mãe, um irmão, duas avós, um avô, tios, tias, primos, minhas duas amigas, e minha quase mãe. – eu novamente ri, ao lembrar do passado como quem lembrava de um sonho bom.
- Hum... Quanta gente! Prossiga.
- Eu os amava, os amava muito. Gostava do cheiro, do riso, da brincadeira. Tanta coisa entre si. Embora brigássemos, sempre continuávamos juntos. Era engraçado, eu não os conseguia odiar, por mais que eles me estressassem.
- Ódio eu sei o que é, eu odeio algumas pessoas, principalmente as da minha escola, odeio todas elas, são todas estúpidas. Estresse eu também conheço, é aquilo que o papai sempre tem, e chega em casa brigando comigo.
- Isso, exatamente isso. Mas deixe-me continuar. Eu amava essas pessoas, amava bastante. Naquele tempo já era difícil se amar alguém, mas eu ainda sentia esse carinho gigante. Saudade, tudo mais.
- Saudade eu também sei o que é. Sinto saudade do meu dinheiro quando ele acaba. – ela disse orgulhosamente.
- Os valores mudaram. –prossegui- Antes as pessoas gostavam de pessoas, e hoje as pessoas gostam de coisas. Tudo se inverteu, antes as coisas só serviam para serem usadas. Nada além. Eu lembro-me do dia em que eu chorei, e meus amigos me ajudaram, seguraram minha mão, e me abraçaram. Faz tanto tempo que eu não abraço alguém. Desde que eles se foram...
- Vovó, sua história ta me cansando. Que coisa mais utópica. Melhor acabar logo com isso. A senhora enlouqueceu de vez.
Então, minha pequena Beatriz, pegou o telefone, e ligou para seu pai. Ouvi quando disse-lhe para mandar o pessoal da clínica vir me buscar, que eu tinha tido uma crise novamente, e que ela não mais agüentava isso em mim. Estava na hora de despedir-se, e me mandar embora de uma vez por todas.
Ouvindo isso, juntei o resto das forças que me restavam. Fui até o banheiro, tomei todas aquelas pílulas, que eles passavam para eu me acalmar, de uma só vez. E esperei o momento chegar, imersa em minhas lembranças de um passado quase perfeito. Finalmente ela chegou, depois de tanta espera, aos meus 75 anos finalmente eu faleci. Depois de ter visto partir todos os meus entes, e amigos e queridos. Morri sozinha. Morreu comigo o amor, a última dose desse que havia na terra.
Não fiz falta. Meu único filho e minha única neta, apenas, compareceram ao meu funeral. Nada de lágrimas, nada de remorso, nada de boas recordações. Assim as coisas tinham de ser. Acabou.