Abri os olhos devagar e vi que já havia amanhecido.
Permaneci imóvel. O braço por cima da tua cintura, um esboço de sorriso nos
lábios e a vontade de estar ali, só estar ali, sem precisar me mexer, sem
precisar que você se mexesse, só estar ali e que aquele instante também não
saísse dali, ficasse tão preso e imóvel naquela epifania quanto eu. Engraçado
até, depois de tanto tempo, depois de tanta coisa, considerar algo que um dia
já foi tão costumeiro como uma epifania. Mas havia uma clareza que enchia o
ambiente de paz e me enchia da mais verdadeira felicidade: a simples. Daquelas
sem delongas, daquelas que dominam a gente sem que nada especial precise ter
acontecido, uma satisfação crônica consigo e com o mundo, como se eu fosse tão
maior que meus problemas e nada pudesse me abalar. E nada podia, sabe? Eu
estava exatamente onde eu queria estar, no meu lugar. Sem a cabeça cheia de
minhocas que tanto tinha me mantido inconstante. Agora era como se aquela
cortina branca balançando na janela e até o jarrinho de flores que eu esquecia
sempre de aguar estivessem me saudando por ter acordado em mais um dia lindo. E
eu queria ter sempre dias lindos, eu queria ter sempre o peito assim, tão cheio
e tão leve. Mas aí eu abri os olhos devagar e vi que ainda era madrugada, que
meu braço tava caindo da borda da cama, minha cabeça ainda pulsava de
enxaqueca, e todas as lembranças me saudavam. Não era a cortina da janela,
tampouco o jarro de flor. As flores já tinham morrido, a janela não era aberta
há dias e não havia mais ninguém. Só eu, um punhado de coisa ruim na bagagem e
a fé na mudança. Rala, escassa, mas ainda ali. Exatamente ali. Olhando pra mim,
da mesma forma que eu pensei estar olhando pra você.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
terça-feira, 9 de julho de 2013
Do que eu não sei controlar
É de uma dor que até a página em branco me apavora. A dor de
não saber ou poder expressar, de temer a incompreensão, de derrubar o dominó
que consegue levar uma muralha abaixo. Um sentimento que preenche e esvazia ao
mesmo tempo, e, achando insuficiente, ainda preenche com doses amargas de incerteza.
Revezando entre medo e amor. Mas faz tudo pulsar, sendo contraditório a cada
segundo, misturando as lágrimas de alegria às de tristeza, numa espécie de
esperança mórbida e doentia. Como se eu ansiasse por uma infelicidade que eu
mesmo levanto pra buscar, que eu faço questão de possuir, ainda quando tudo que
quero e busco é a calmaria que me foi furtada... e nem sei quando. Tampouco
como. No desespero de tentar me salvar dessa onda forte que me derrubou e
desnorteou, as águas do meu oceano privado nunca foram tão escuras, nem as
noites tão gélidas. O desespero me entorpece, de modo que não nado, mantenho-me
inerte, fico a observar se algo muda ao meu redor e se, misteriosa e
milagrosamente, eu alcanço a superfície domada pela segurança que um dia senti
em mim mesma. Foi junto da calma. Agora, sem ter ao que ou a quem recorrer, com
o coração espremido na palma da minha própria mão, fico perdida dentro desse
masoquismo de imaginar como seria se eu tivesse coragem de testar atalhos na
minha estrada. Tenho tanto medo de errar a direção que fico onde estou,
observando de longe, como se eu fosse duas, minha outra metade caminhar para o
abismo que mais consegue me fascinar.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Saiu da redoma e se escondeu atrás dos muros
De repente. Como tudo em sua vida o era, mais uma vez de repente a verdade alcançava Luísa. E então, no meio desse "de repente", a menina começou a crescer e diminuir, de forma assustadora e que fugia ao seu controle. Havia um considerável tempo em que a moça sempre que olhava aos lados, avistava horizontes cada vez mais bonitos. Eles existiam, os horizontes. Contudo, uma vez que ela diminuia, tal qual Alice em seu País das Maravilhas, percebia que a relva na verdade eram paredes. Milimetricamente organizadas de forma que Luísa não reparasse que estava presa, mas estava. Não haviam chaves. Cada instante que tentava se aproximar dessas paredes, seu tamanho caia ao meio. Cada vez que se distanciava, em contrapartida, crescia o dobro. E, quando grande, era fácil acreditar que era livre, mesmo sem ser. Só aí percebeu os danos assombrosos que sua mente podia lhe causar. Até descobrir que sua liberdade havia sido furtada, sentia que tudo estava em paz e não a perturbava não ir além de onde estava. Todavia, após surgido o conhecimento de agora ter saído da redoma, finalmente, mas estar cercada de paredes, as coisas pareciam não bastar. Toda aquela linda realidade irreal não era mais suficiente. Queria enxergar o outro lado. Não podia. E se desesperava, e gritava, tudo pra dentro. Bolava um milhão de saídas, na desilusão de saber que jamais poderia sair. O mundo que era grande se tornou pequeno. As coisas pareciam oscilar ainda mais que seu tamanho. Então Luísa sentou ali, no meio da imensidão claustrofóbica daquele gramado verde, e abraçou seus joelhos torcendo pra sua constância voltar ao peito e todas as dores irem embora com as brisas.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
A redoma de vidro havia sido aberta
Era engraçado que a vida a mostrasse o quão cheia de contradições era. Ela, não a vida. Embora a vida também o fosse. Sempre acreditou na dinâmica das coisas, sempre dando o seu jeito de enxergar a dinâmica da forma mais pessimista que lhe fosse cabível, e agora estava a par, justamente pela dinâmica. Justamente pelas sucessivas mudanças, reviravoltas, quedas e crescidas às quais tinha ficado sujeita nos últimos tempos. E se afastou de quem era, sem deixar que se perdesse de si. Espero que, querido leitor, deste modo o entendimento do que estou querendo dizer se torne mais fácil. Porque assim o foi, teve que se deixar de lado para que pudesse se deixar seguir. E seguiu. Milhões de caminhos, milhões de desvios. Chegou a lugares que jamais imaginou que chegaria e, a essa altura do campeonato, sequer saberia dizer se isso foi uma experiência boa ou ruim. Mas chegou e está segura agora. Então preferia acreditar que foram experiências necessárias. Quanto ao necessário, muita coisa havia deixado de ser, muita coisa havia se tornado. Confesso, mesmo que a desarme, que a moça se sentia zonza com tanta coisa que aconteceu em tão pouco tempo, e houve muito tempo. Muita coisa multiplicada por muito tempo é mais coisa ainda. E mais coisa é mais vida, é mais dias, é mais choro e mais sorriso. E mais dela também. No meio dos cruzamentos dessas ruas que andou, acabou se desvencilhando de muitas das suas âncoras, outras tantas a acalçaram e era difícil agora. Mas ao passo que era difícil, agora era também tão mais fácil. Porque no meio de todo desequilíbrio, todo sufoco e aperto, Luísa conseguiu atravessar aquela mesma corda bamba que já lhes contou tantas outras vezes. Você acredita nisso? Ela mudou. Doeu. Curou. Melhorou. Piorou. Chegou do outro lado. Melhorou de novo e encheu de cor cada canto da casa. E tem tanta gente, tanto vento, tanta imprevisão, que ela até evitou trazer a rotina. Ficou pra trás. E o que fica pra trás, dessa vez, se tornou passado. Não tem mais aquele baú no canto do quarto, agora só tem lembrete em cada parte da mobília. Lembrando-lhe, a cada letra, que o futuro está chegando e que, se você olhar bem, o futuro é cada linha que eu escrevo a partir de agora. Eu escrevo que vai dar certo. E deu.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Divagações sobre o relógio
Ou sobre o clima. Ou sobre a ausência. Ou sobre o amor.
As palpitações cardíacas tornam-se
mais fortes, a perna se move freneticamente e eu confiro as horas de minuto em
minuto. Cada intervalo parece demorar mais. Ainda não é hoje, mas posso prever
com exatidão o dia seguinte. Na espera, uma quantidade de lembranças bonitas
que se repetem minuciosamente e descompassadas ao tempo daquele quarto.
Finalmente a ansiedade tem seu fim. Aquela batida na porta chega, a que eu
reconheceria ainda que fosse surda. E eu chego ao corredor quase que em um
passo só, desfazendo a volta na fechadura numa velocidade digna de medalha
olímpica. Não preciso perguntar quem é. O ar já foi tomado pelo cheiro da familiaridade. Se fosse um filme, esse seria o momento em que tudo aconteceria
em câmera lenta: nossos olhares se encontrando e eu enlaçando o seu corpo, tão
maior que o meu, como se você coubesse na palma das minhas mãos. Não há música,
mas ainda assim uma melodia toma os meus ouvidos e me faz querer dançar. Nesse
exato instante, uma enxurrada de endorfina é liberada em mim de forma que meus
músculos faciais formam um sorriso que você perceberia mesmo que não visse meu
rosto, que se manteria colado ao seu ombro. Percebe? Fica fácil considerar justas as variações de tempo: até os dias mais quentes se tornam
chuvosos quando me falta o seu abraço. É aí que abro os olhos e ainda estou aqui, na
chuva, coração na mão, saudade no peito, deixando essa cena se repetir mentalmente mil vezes antes de te ver chegar.
domingo, 9 de dezembro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
De si para si
Quando ela acordou naquela manhã pouco ensolarada, paradoxalmente, tudo estava mais claro. Consultou seu relógio, antes mesmo de lembrar não precisaria do seu apego aos horários. Espreguiçou-se e, de repente, a cama de casal pareceu do tamanho ideal para ela. Seu corpo esguio parecia tomar cada centímetro daquela superfície macia e isso fazia com que a moça se sentisse grande, literal e figuradamente. Após alguns minutos de preguiça e reflexão, levantou-se e preparou a cafeteira. Ao sair do banho, o apartamento todo cheirava a café, limpeza e paz. Pegou sua velha caneca, lembrança que o rapaz trouxe pra ela havia um considerável tempo... que agora, mais que nunca, era só outra lembrança, e foi até a janela enquanto deixava o gosto do café tomar toda a sua boca. Encostou e ficou ali, parada, pensando. Ria consigo ao constatar como as coisas mudaram em sua vida. Se alguns meses antes alguém tivesse chegado para falá-la que agora ela teria, finalmente, conseguido desenvolver essa habilidade ímpar em desconsiderar, ela duvidaria. Eis que conseguiu ser tudo o que quis ser: desapegada. Então constatou que acabara de modificar seus anseios: não era desapegada que a moça queria ser. Queria, só não sabia, ser humana e estável. Duas características que jamais se acertaram no mesmo passo. Mas era uma busca, precisava buscar algo. Estava vazia, porém não insatisfeita. Essa sensação conseguia fazer dela, dentro dos parâmetros aceitáveis para alguém com suas dúvidas, tranquila. No mais, se alguém a buscasse, hoje, ela não estaria. Precisava da companhia exclusiva de si própria. Um dia, talvez em breve, Isabela voltaria a se esforçar pra caber dentro da sua armadura e encarar tudo de novo, não agora, não por enquanto. Deixa tocar a campainha, deixa o celular chamar, deixa fugir dos outros, se o objetivo for se encontrar, menina. Deixa ser, Isabela, só deixa.
domingo, 19 de agosto de 2012
About the pain. Her pain.
Eram tantas frases soltas, esquecidas e dolorosas jogadas no ar daquela sala, que Luísa não sabia a qual se ater. Sentia-se limpa. Dolorosamente limpa. De uma organização impecável, que chegava a incomodar. Saiu de casa em busca de respostas que já havia encontrado, e que clarearam na mesma proporção em que a noite se tornava mais escura e silenciosa. E se fazia dela, aquele silêncio, que tanto falava. Ventava. Tanto. Tinha dificuldade para acender o cigarro. A menor delas. A cada trago, uma constatação. A cada gole quente de vinho e a cada solo do Pink Floyd, uma nova certeza. Nenhuma alegria, ou quase. A verdade. Ainda assim, complicada. E se despia e falava de si e esperava que o motivo a que tanto se dedicava aparecesse. Mesmo sabendo, de alguma forma misteriosa e irrevogável, que não apareceria. Devia ser sua sina, aquela. Não dela. Não só dela. De uma sequência de gerações. Como ousara comparar, num riso: quase uma nova versão dos Buendía, de García Márquez. Não fazia doer menos. Ainda que tivesse a consciência dos fatos, não poderia alterá-los. Então, tornava-se fácil entender porque se entregava. Porque superestimava dores tão pequenas, aprofundava cortes tão superficiais. Justamente por querer fugir da superficialidade, por lutar por algo diferente. E a impressionava tanto, que a diferença que buscava fosse tão igual a de tantos outros, talvez por saber que não conseguiria nada além. O que poderia trazê-la mais vida que outras vidas? Mas tinha uma dificuldade anormal em mantê-las. Até conseguia tê-las, ou quase, por tão pouco. Sempre passando perto, nunca conseguindo. Luísa queria mudar o mundo, começando pelo seu próprio. No máximo, conseguiria mudar os móveis do seu quarto de lugar. Era uma mudança, por mínima. E se acomodou tanto, aquela moça. Como já teve mais esperança. Ardia dentro do peito a confirmação de que era tarde, por mais que fosse cedo. Que todas as oportunidades já haviam sido perdidas, mesmo precocemente. Pensava, inclusive, se aquilo era certo, aquela maturidade forçada, imposta, não só por si, mas também por si. Aprendeu a qualquer custo e o preço foi alto demais para uma mulher que nem sequer era mulher ainda. Era menina, só não sabia brincar. E possuía tantas outras Luísas que tentavam se sobrepor com historinhas bonitinhas ou com realidades paralelas. E tentava tanto continuar sendo forte, mesmo quando a vida não tinha pena de bater, estava conseguindo, supunha. Suposições... Como estas lhe doíam. As incertezas. Martirizava-se pelas incertezas. Luísa era de uma racionalidade doentia e desumana. Podia até repetir para si que talvez fosse toda amor, até seria, até o era também, mas não passava de um cérebro ativo, de uma mente a mil. De alguém que tinha a percepção de cada centímetro que afundava e que afundava cada dia um pouquinho mais. Não sabia qual dos seus figos ainda não estava podre e a figueira continuava à sua frente. Caíam. Eram muitos, mas caíam velozmente. Logo seriam escassos e ela ainda estaria ali, parada. E meu Deus, eu não tenho nem vinte anos e já desisti de ser feliz. O figo caiu, Luísa não tinha culpa, estava podre. Tinha outros... Não condiziam, qual será o certo? Vanessa, ajude Luísa, por favor. Vanessa, tenha pena dela, ajude-a! Aquele da esquerda pode ser o mais indicado, está mais fácil de pegar. É pequeno, pegue outro, Luísa. Você só pode escolher um. A escolha foi feita, agarre-o. Não desista ainda, Luísa! Busque uma escada, pegue o figo certo, não escolha os mais baixos, estes não são pra você. Corra, ainda é tempo. Suba na árvore, você já caiu antes, corra! Não brinque, Luísa, você não é menina, seja mulher. Seja mulher uma vez na sua vida! São tantos figos, só um é fácil. Nem tanto. Ela tenta pegar, escorrega, foge dos seus dedos, parecia pequeno mas é grande demais para os dedos finos daquela menina-mulher. É esse. Só pode ser ele. Não vou soltá-lo. Não vou deixar que você o solte, Luísa. Daqui a trinta anos, se você não tiver nada, você poderá tê-lo, ainda. Tenha. Não deixe esse figo cair. Segure algum, segure este. É o menos apetitoso, é o único que você será capaz de comer. É o seu, mesmo que não pareça agora. Segure-o, fará sentido.
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domingo, 5 de agosto de 2012
Contrapartida
Luísa era especialmente nostálgica aos domingos. Neste domingo, fora ainda mais que nos outros. Nos últimos dias havia sido tomada por uma sensação indescritível e indiscutivelmente incômoda. Sentia-se fugindo de si, ao buscar algo que estava aquém, mas que lhe era indispensável. E doía essa ausência do desconhecido. Esta necessidade. Para ela, "precisar" sempre foi a palavra mais forte de todas, maior que qualquer amor ou qualquer ódio. Indicava dependência. Dependência a assustava. Dizia-lhe o dicionário que depender era estar subordinado, estar sujeito. Na prática era ainda pior. O que poderia ser mais preocupante que estar subordinada e sujeita a algo que não conseguia sequer descobrir o que era? Havia passado uns bons dias buscando respostas incessantemente, sem encontrar nada que lhe fosse válido. Andava em círculos. Como se a cada uma das vezes que julgasse estar perto da descoberta da sua vida, perdesse o equilíbrio e caísse exatamente do lado oposto. E achou uma razão, duas, três... nenhuma foi capaz de convencê-la. Virava doses como água, na esperança que o álcool a fizesse desfocar o pensamento, mas o efeito era inverso. Luísa esquecia de tudo, lembrava apenas do que tentava fugir: da dúvida. E esta dúvida que a consumia não tão silenciosamente quanto ela desejava, a estava destruindo vorazmente. Sentia-se letárgica. De uma morbidez que causava pena. E dentro das suas diversas horas de sono, um sonho, feito um presente, foi capaz de abrir seus olhos para tudo que a rodeava e para aquilo que rodava tanto dentro de si própria. Luísa sabia da sua aflição. Sabia de si. Mesmo que não dependesse apenas dela colocar as coisas em ordem, aquela informação causou na menina uma profunda paz. Como se aquela tempestade que imaginara pouco antes, não passasse de uma garoa que, mesmo sendo levemente irritante, seria fácil de contornar, bastava apenas focar no que importava. Aquilo era secundário. Passou dias entregue a uma dor baseada no secundário. Algo dentro dela tentava se manifestar, fosse em forma de raiva ou de calma. Mas agora tinha o controle, tomara as rédeas de novo, era toda calmaria. Bastava querer. E queria. E nada causaria em Luísa um alívio maior que ter o controle. Saber onde estava pisando era maravilhoso. De resto, continuaria a levar seus dias como uma partida de xadrez. Tentando prever as próximas três jogadas, estrategicamente traçando seu próprio destino. Nem se importava que as circunstâncias não estivessem a seu favor, ela estava, só precisava de si, só dependia de si. E era toda dela. Luísa havia voltado. Desta vez, feliz.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Unhappy three friends
Era engraçado. Luísa sempre foi uma menina diferente das demais. Tinha aquele ar de arrogância peculiar das meninas complicadas. Sorria sempre de canto de boca, como que pra demonstrar uma superioridade que nem ela mesma sabia se tinha, mas que a confortava. Acostumou-se desde cedo a conviver com a solidão, sua única verdadeira companhia. Até então. Foi quando encontrou seu primeiro amor. Garotos? Não, Luísa não era do tipo que deixaria seu mundo virar ao avesso por causa de um envolvimento emocional qualquer. Sua primeira amiga. Virou parte de si própria. Isadora trazia Luísa à vida quando, nas suas diárias crises existenciais, ela pensava em deixar tudo de lado e jogar pra cima o pouco que possuía. E, por mais que doesse, acalmava-se por saber que, no meio da noite, no meio de um choro qualquer, aquela voz sonolenta do outro lado da linha iria dizer que as coisas iam ficar bem, que aquela pessoa que fazia de tudo por ela, também a ajudaria a segurar as pontas até que recuperasse sua habitual força para lidar com seus habituais problemas. Virou hábito. Passou a habitar, inclusive, um espaço enorme na casa e na menina. Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares... as duas continuavam as mesmas, até pelo pacto que haviam feito, depois de tantos segredos compartilhados e histórias para contar aos netos. Não foram poucos os dissabores que Isadora tomou como teus. Os dias, generosos, resolveram presentar Luísa mais uma vez. Na nova cidade, entre os novos rostos, talvez com um pouco de atraso, eis que a menina de nome sugestivo apareceu para dar mais cor àquele outro céu. Elis, numa proporção que batia de frente com o tempo, encantou a menina. Talvez por compartilhar das mesmas dores, dos mesmos medos. Ambas sofriam. Inicialmente, não caladas. Contudo, devido às diversas tentativas de fazerem as coisas certas e ao indiscutível sucesso em não conseguir realizar esta façanha, calaram. Preferiam ouvir. Evitar falar, para ver se assim não ouviriam um “eu te avisei” mais à frente, que de nada adiantava, mas que já se fazia costumeiro. As duas erravam. As duas começaram a encarar seus erros com mais tranquilidade e calmaria, pois não eram as únicas, e àquela altura do campeonato, não estar sozinha no barco já era uma vitória. Reuniram-se as três e viram o quanto tinham em comum. O cômico era que a dor as havia unido. E era justamente esta dor que ia embora depois de cada conversa, de cada bebida, de cada loucura, de cada um dos detalhes mínimos que começaram a fazer toda a diferença. Então Luísa ria. As três meninas erradas, errantes, agora tão mais maduras e tão mais completas, estavam crescendo. Por mais que o presente doesse, haviam chegado ao consenso de que as coisas seriam mais bonitas no futuro. E se não fossem? Ah, se não fossem elas continuariam se reunindo para seus vinhos na madrugada, para seus planos de organizar massacres em conjunto, ou para dominar o mundo. Até porque, com aquelas três juntas, nem o diabo podia... AVALIE, essa coisa pequena e mesquinha, a vida!
quinta-feira, 12 de julho de 2012
To wish, to smile, to wait
Era uma quarta-feira à noite quando Luísa decidiu sair para tomar um café. Por inocência ou descaso, esquecera completamente que aquele era o dia onde os brasileiros que não tinham com o que preencher o tempo e/ou a cabeça, saiam para assistir o futebol semanal e fazer barulho nas ruas. Mal precisou chegar à esquina para ver que não tinha feito tão bom negócio quanto pensou que fizesse. Estava tranquila, de verdade. O que queria dizê-la, mais que qualquer outra sensação, que precisava pensar. E gostava do silêncio. Pra pensar, primeiramente. Lembrava-se de um vídeo científico que havia visto havia poucos dias, que, num trecho específico, dizia, em síntese, que podemos enxergar de duas formas: com os olhos, o que chamamos de visão; e com o cérebro, o que chamamos de imaginação. Aquilo se manteve em sua mente por um tempo e não saiu da sua cabeça durante toda aquela quarta. Luísa só queria sentar sozinha, na mesa do canto, tomar seu café sem açúcar, refletir um bocado e enxergar com o cérebro. Agradeceria se os apaixonados por esporte a permitissem realizar esta pequena façanha. Queria tanto que, mesmo considerando essa última análise improvável, seguiu caminho. Foi a pé, gostava de caminhar, era perto, não havia perigo. No mais, sentia-se saindo diretamente de um filme do Woody Allen, quando colocava as mãos dentro do bolso do casaco e seguia com aquele ar de mistério a algum lugar que as pessoas não seriam capazes de supor. Brincava muito com isso, consigo mesma. Talvez por ter a mania de observar demais, sempre acreditava, no fundo, que havia alguém a observando. Estava certa, algumas vezes, noutras, nem tanto. Naquele dia, ela era só mais uma pessoa nas ruas, por mais que com um propósito diferente. Quinze minutos depois, ela estava abrindo a porta do café e constatando que encontrar a paz seria mais fácil do que supôs. Sentou, abriu seu exemplar de Cartas Chilenas (livro que sempre começava, mas sempre deixava por terminar) e sorriu. Não demorou também a perceber seus pensamentos se dispersando, atravessando milhões de atmosferas e depois voltando para um mesmo lugar, o de sempre. Luísa sorria. Assustada, mas sorria. Sentia-se tão perdida na sua leitura quanto Paris Hilton se sentiria ao ler algum dos escritores malditos, então decidiu fechar o livro por ali. Logo após fazer o pedido ao garçom, decidiu que ficaria apenas onde estava, levemente encostada à parede do lado, sentindo-se abraçada pelo estabelecimento, literal e figuradamente, pensando e supondo, os dois gerúndios que mais gostava e também os mais perigosos. E continuou sentada, vendo algumas coisas com mais clareza, buscando clarear outras... nem sempre obtendo sucesso. Quando alguma de suas ideias a desconfortava, era fácil voltar àquele lugar e enxergar tudo claro de novo, como se a solução estivesse sempre à sua frente. Doíam-lhe, algumas suposições. Mas Luísa sempre foi deveras pessimista, tentava encarar os fatos e as suposições com outros olhos agora, nem sabia se era uma boa ideia, mas a estava confortando tanto, que mesmo que não fosse certo depois, só a premissa de parecer certo agora já lhe era suficiente. E então percebeu que, não era só quando pensamentos ruins lhe tomavam que ela voltava àquele lugar. Era sempre. A cada ponto final que se desse em sua mente, ela voltava para lá. Então, sorriu ainda mais, com uma sinceridade indiscutível. E continuou mexendo a colherzinha no seu café enquanto sorria e mantinha aquele semblante de paz que tão raramente era capaz de possuir. Estava contente, Luísa. Com medo e contente. Um passo por vez. Era mesmo melhor que ainda tivesse receio... A noite havia sido agradável, fizera um bom negócio em não desistir de sair de casa. Levantou e foi até o caixa. Quando terminou de pagar, o rapaz que seria o próximo a ser atendido a falou: “É um moço de sorte, ele. Dá pra ver no seu sorriso que é um moço de sorte.”. Luísa deu-lhe um sorriso de retribuição e saiu. Ao fechar a porta de vidro, que agora ficava para trás, e caminhar apressadamente de volta à sua casa, a menina pensava, incansavelmente: é um moço de sorte, ele. Dá pra ver no meu sorriso que é um moço de sorte.
domingo, 1 de julho de 2012
He left no time to regret
Completamente perdida. Duas palavras formando um significado que definia com exatidão os últimos dias da menina. Não sabia para que lado andar, se é que devia andar. Não sabia se devia permanecer ali, inerte, por mais que doesse a angústia da espera. E se as coisas não mudassem sozinhas? E se precisasse mesmo de alguma conduta ativa para que tudo voltasse aos trilhos? Só o movimento de rotação da terra não parecia ser suficientemente forte para fazer tudo voltar ao lugar. Ela não parecia, inclusive, ser suficientemente forte pra tomar alguma decisão relevante. O tempo havia se arrastado de uma forma que seu desgaste físico e emocional era notório. Fazia com que se lembrasse de um poema que havia lido pouco antes de ter agido com inconsequência o bastante para fazer tudo desandar. Sylvia Plath, como de praxe:
"What did my fingers do before they held him? What did my heart do, with its love?"
E agora era tudo diferente... Agora tinha que lutar para reconquistar cada espaço que se fazia vago, cada vírgula da história que ainda deveria ser escrita. Queria encontrar canetas. Mas o outro parecia escondê-las. Luísa estava incerta, incoerente, buscando as suas antigas dúvidas enlouquecidamente. Tudo fugia. O chão sumia, o ar parecia mais denso. Era uma sensação inédita e frustrante. O pior ainda era saber que não havia próximo passo a ser dado, a não ser dar ao relógio oportunidade de girar seus ponteiros.
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sexta-feira, 29 de junho de 2012
Coração na mão, como o refrão de um bolero
A dor-de-cabeça ela não sabia se vinha de fora ou de dentro. Ou se eram duas, distintas, elevadas, equivalentes. Não sabe quando tempo passou na cama, esperando que tivesse tudo sido um pesadelo e que, a qualquer hora, ela iria notar que nada do que lembrava tinha acontecido. Não foi um sonho. A dor realmente estava ali. Havia botado a perder. Pulsava dentro dela como nunca havia pulsado antes. Cada vez que sentia seu coração bater era como se ele repetisse em alto tom: fracassei. A cada batida, a vontade de apagar os últimos dias vinha à mente. Não adiantava. Sabia que não havia muito a se fazer, ou até nada. E esta incapacidade de agir a tirava do sério. De repente, era tudo diferente, mas não menos importante. Pelo contrário, talvez só agora notasse que era ainda mais importante do que anteriormente supunha. E, mais uma vez de repente, sentia-se a caricatura dos amores difíceis, onde por mais que se tente fazer as coisas da forma mais correta, uma atitude estúpida estragaria tudo. Desta vez, ela havia sido estúpida. Por algum motivo injustificável, que ela tentava acreditar que existisse, mas não conseguia visualizar. Devia haver alguma coisa que a fizesse fugir de si o suficiente pra agir tão mediocremente. Não, não havia. Era difícil admitir, todavia, não haveria como haver. Nada justificava. Só doía. E confirmava: há diversas formas de morrer, de longe a pior delas é o arrependimento. Castiga. Amargura. Corrói. Reduz alguém ao nível de nada. Porém, "nada" implica em neutralidade, o que havia ali era descrédito, decepção, erro. Erro é pior que indiferença. É uma sensação completa, não vazia... Pela primeira vez na vida, ela preferia se sentir vazia. Também pela primeira vez, a dor da culpa era tão forte que ela não seria capaz de esvaziar. No outro dia, quem sabe, as coisas amanheceriam mais claras, ela saberia responder algumas questões internas e tantas outras externas. Provaria a outrem o que tanto sabia, e as coisas ganhariam toda a cor que ela havia enxergado naquele arco-íris bonito e breve, que Luísa tanto sonhava em ver de novo.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
So many for us
Luísa estava abraçada com sua almofadinha de coração, deitada em posição fetal, com o rosto vermelho escarlate e completamente molhado de lágrimas. Fingir que ia tudo bem arrancava diariamente uma parte dela. O sangue não estancava. Não havia nenhuma anestesia que diminuísse nela a sensação de estar se destruindo e furtando de si própria a chance de fazer as coisas da forma certa. O risco era tão alto que não sabia se tinha condições de arcar com as consequências. Então, no fim do dia, ela se jogava no sofá com a sensação de estar adiando sua vida. Sentia os olhos marejarem, buscava o pouco de auto-controle que ainda lhe restava, levantava e ia preparar um café para tomar enquanto trocava freneticamente os canais da tv. Como ela queria conseguir tomar uma decisão. Sair da inércia. E, naquele dia, tudo que Luísa conseguiu foi ficar pior que nos demais. Ao abrir a porta e se deparar com aquele corredor vazio, sentiu seu corpo gelar, como se o sangue fugisse, e de repente só o seu rosto estivesse quente. Jogou o chaveiro em cima da mesa da sala e ao entrar no quarto se atirou sobre aquela almofada, como se a apertando forte, ela conseguisse que as coisas dentro dela não se dispersassem ainda mais. Apertando forte, talvez tudo fosse continuar imóvel ali. Mas perdia um pouco de si a cada fração de segundo que não tomava uma decisão. E como queria adormecer e acordar com tudo diferente. Adormecer, pela primeira vez, sem passar horas ponderando como ela vai sofrer menos. Se vale o risco. Como vai ser se não valer o risco. Voltaria ela à estaca zero? Uma grande perda não nos levava à estaca zero, mas sim nos leva a buscar enlouquecidamente algum tipo de estabilidade. E ela tinha alguma estabilidade agora, teoricamente. Estava tudo tão bagunçado e dolorido e talvez mais instável do que nunca. Porém, estava aparentemente calmo. E essa aparente calmaria a servia de consolo, vez ou outra. Tinha o controle de algo. Ter o controle não significava muita coisa. Talvez, se ela perdesse o controle, as coisas se acertassem. Mas se não? Se não ela estaria mais perdida e impotente que nunca. Como Luísa queria ser corajosa pra enfrentar as coisas cara à cara. Como Luísa queria fugir dos significados nas entrelinhas. E sonhava... tanto. Acordava doendo mais. Existiam tantos mundos preparados para tudo que ela queria viver, embora todos imperfeitos, poderia ser ideal. Ainda assim, poderia. Enquanto Luísa continuasse sendo uma covarde fugindo de tudo que queria por medo, aquela agonia persistiria, era sua única certeza. Luísa precisava soltar aquela almofada, levantar da cama, lavar aquele rosto, tomar seu café enquanto fazia uma ligação marcando um outro café. Precisava apenas disso: de dez minutos, coragem e uma conversa franca, olho no olho. Até lá, ela se escondia ainda mais no seu casulo, torcia para que o mundo se refizesse e as coisas aparecessem cada uma no seu devido lugar. Era utopia, mas era tudo que tinha pra hoje.
sábado, 26 de maio de 2012
E todos os destinos irão se encontrar
Luísa estava jogada na cama, chovia lá fora, tinha uma garrafa de vinho na mesinha de cabeceira, a voz de Chico vindo de alguma parte do quarto e aquele mesmo rapaz com seu corpo entrelaçado ao dela. Se alguém a pedisse para definir felicidade, ela definiria como aquele momento. Não conseguia entender o que havia nele que a fazia sentir-se daquela maneira, querendo a noite inteira para fazer samba e amor, sem sequer se importar com o sono na manhã seguinte. Nem com qualquer outra coisa. E Luísa fugia de uma resposta, por saber o risco que a situação em que mais gostava de estar a punha. Era insensato, era impulsivo, era importante. Era ele. A certeza de não saber o que estava fazendo a deixava desconfortável, mas o desconforto era indiscutivelmente menor que a sensação de estar em casa que aquele outro lhe trazia. Então temia. Temia pelo fim da madrugada, não por preguiça, talvez por ser um pouco covarde... Temia pela ida dele. E dela. Pelo chamado da realidade, pelo mundo que existia fora do cobertor de lã que agora os cobria tão aconchegantemente. Ainda assim, aquela impressão de que era certo, mesmo que por um momento, a deixava satisfeita e livre de qualquer receio. Luísa não queria sair dali. Sentindo a respiração branda do outro em sua nuca, milhões de pensamentos irracionais lhe inundavam a mente. Queria se desprender. Estava farta de obrigações que ocupavam seu tempo, mas não sua alma. Queria abrir mão de tudo. Deixar de lado tudo que vinha lhe causando dissabores. Queria ser dele. Queria compreender em que situação se enquadrava, primordialmente. O que será que seria? O que viveria nas suas ideias? Buscava um sentido, por mínimo que fosse, que a desse a coragem necessária para fazer aquela noite virar dia sem medo do amanhecer. Já a dizia Chico que nem todos os avisos iriam evitar, já era prova disso, além de tudo. Não tinha governo, não tinha vergonha, não tinha juízo. Tinha vontade, apreço, carinho, memórias bonitas. E, por hora, isso parecia bastar.
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Francisco Buarque de Holanda
terça-feira, 1 de maio de 2012
Art never comes from happiness
Eu sempre repetia sucessivas vezes que aquilo era psicose e drama enquanto Luísa continuava a me olhar com os seus olhos céticos de desprezo. Confesso que aquele senso claro de superioridade me tirava do sério. Mesmo sendo deveras calmo, tinha vontade de sair e gritar, com medo de que eu acabasse por perder o controle e quebrasse tudo que aparecesse na minha frente. Era desesperador discutir com Luísa, posto que ela se achava sempre certa e ocupada o bastante para ouvir minhas desculpas. Ou para me responder, fosse o que fosse. Dava de ombros e saia de perto, eu não era digno de suas palavras. Nas mesas de botequim aprendi que seria o sonho de muitos homens, digo, uma mulher que não discute, que apenas ignora e sai, contudo, na realidade é o inferno. Não um, mas o próprio inferno. Recolhida na sua capa de indiferença, Luísa calava e fingia não dar a mínima, mas dava. E eu pagaria por fosse qual fosse meu erro, tivesse eu errado ou não, porque sua raiva vinha feito veneno lentamente introduzido às minhas veias. E me doía vê-la tão conhecedora de leis e direitos, não me conceder a ampla defesa. Era em vão. Nos dias calmos, eu tentava falar sobre isso, mas a resposta era clara: não haveria resposta alguma, só silêncio. Com o tempo eu fui me adaptando, não por escolha, mas por não conseguir avistar outra saída, se é que essa adaptação pode ser tida por saída. E me sentia distante, como que deixando um pouquinho dela escapar entre os dedos a cada nova discordância. Confesso uma coisa: eu sou difícil de lidar, sei que sou. Ela também o é, não sei qual dos dois é mais. Gosto das coisas claras e de esclarecer tudo. Fujo do abstrato e subjetivo, porque embora cada um saiba de si, eu gosto de saber do nós. E não ligo que a mulher que eu tenha escolhido para viver e amar seja diferente, eu só me importo que ela finja não se importar só para me diminuir. (...) Luísa havia calado, sempre foi fechada, mas agora ia além. Antes ela costumava me dizer que tinha dois grandes anseios na vida, e que seria uma mulher realizada se alcançasse qualquer um deles: ser imensamente feliz ou ser artista. Sim, artista, no sentido amplo. Atriz, compositora, escritora, pintora, qualquer coisa, contanto que fosse artista. E de tanto se apegar à literatura chegou ao consenso que só podia escolher uma das opções: ou seria artista ou imensamente feliz. Já a avisou Bukowski que a arte nunca vem da felicidade, então só poderia escolher um dos dois. Optou por tentar ser feliz e levar uma vida normal. Embora não toque mais no assunto, sinto que ela sente que fracassou. Luísa não se contentaria com tão pouco. Um emprego que ia bem, alguém que gostasse dela. Nada que outra metade do mundo fosse incapaz de possuir. E, para ela, a razoável facilidade de acesso à suposta felicidade que ela havia adquirido, acabou por tirar o encanto da sua vontade de ser feliz. Via-se saturada de viver sem ter vivido. Sem entrega. Sem mudanças. Só do jeito metódico que sempre preferiu fazer as coisas. Coisas tão suas que não aceitava críticas nem sugestões, nem minhas. Então eu me vi tentando suprir ausências, tentando me fazer necessário, sendo a luz de abajur que iluminaria toda a cidade do meu amor. Sem sucesso. O que Luísa queria estava aquém da minha possibilidade de conseguir trazer para lhe dar. Havia desistido da mediocridade do "ser feliz". Ao mesmo tempo que não havia nenhum motivo que a possibilitasse ser uma grande artista. Começou a aspirar por uma grande catástrofe que a pusesse dentro do seleto grupo dos que conseguiram sem conseguir. Pode até me falar que é ousadia falar assim dos grandes, mas não considero que ser derrotado seja uma vitória. Ser derrotado e tirar proveito disso não é uma vitória, mas uma válvula de escape tão incapaz de trazer a realização quanto a própria "pseudo-felicidade". Era isso que eu não queria que ela sentisse, este trauma. Eu tentei preservar Luísa, livrá-la da maior das decepções, que era justamente a de se decepcionar quando se decepcionasse e visse a pequenez daquilo tudo. A arte não vem da felicidade, nem tampouco da tristeza: a arte vem do vazio, da ausência, da sensação de quem já viu de tudo e não se surpreende mais com nada, a arte é o nível mais doloroso que um ser humano pode alcançar. A arte é tudo que eu queria que a minha mulher não quisesse e era tudo que ela mais queria. E aí fomos vivendo, daquele jeito meio torto, meio errado, ela com a esperança que a grande derrota viria, eu com a esperança que ela mudasse. Quando dei por mim, era tarde. A minha Luísa havia se esvaziado por completo, mas não havia se tornado artista. Na minha ânsia de fazer as coisas darem certo para ela e na frustração de ver tudo desandar, algo inusitado aconteceu: nenhum dos dois alcançou o que queria, mas ambos vimos o outro alcançar. Agora eu estou com o rascunho do meu primeiro livro em mãos, Luísa está do meu lado, sorrindo, cansada e satisfeita, na porta de uma editora. Não sei se vou conseguir ser artista, ela diz que já sou, que ser um grande escritor não é vender milhões de cópias, e sim escrever uma grande história. Eu escrevi a nossa. Dolorosa, sem grandes aventuras, com algumas catástrofes, que não nos rendeu nada do que esperávamos, mas que fez de nós realizados e completos na nossa própria incompletude.
terça-feira, 20 de março de 2012
E?
Estava certo. Talvez não tão certo quanto ela queria que estivesse, entender os outros é uma questão que ia além da sua capacidade. Nem sei se o seu desejo era entender, de fato. Vai além, também. Consultou o relógio da sala antes de sair de casa com a sensação de vazio. Apressadamente desceu os degraus e passou sem dar "boa noite" ao porteiro. Passos rápidos. Mente a mil por hora. Precisava sair para que ao ver outras pessoas pudesse desfocar daquela que não saia um segundo sequer do seu pensamento. E não tinha motivos para se sentir daquele jeito. E não tinha sentido achar que podia pensar naquilo tudo. Nem dá para se culpar: passar o telefone errado sempre foi a sua maior característica. Não é culpa de ninguém, é ela. É que não dá pra saber se o outro vai ligar e se ela passar o número certo, ela vai esperar a ligação, e por mais que depois passe, vai passar pelo menos uma semana vivendo em função da chamada não recebida, que o outro acabou esquecendo de fazer e esquecendo dela e esquecendo de tudo que ela não esqueceria. Então, como se estivesse posto num código de normas comportamentais que criou para sofrer menos, ela se estabelecia essa regra: nunca passar o telefone correto para o moço na primeira noite. Era meio que um desafio também, uma prova de resistência, saber se ele iria procurar descobrir o número, descobri-la, mesmo com o telefone errado, às vezes até com o nome falso. Mas era instigante. E solitário. Porque ainda assim esperava a chamada no dia seguinte. E a dele, esperou, bem precisamente, por nove dias. Seus olhos claros e seu toque quente não saíram da sua cabeça e ela se amaldiçoou por possuir um costume tão cruel e se abençoou por possuir um costume tão sensato. Se tivesse passado o certo e ele não tivesse ligado, teria sido pior. E se ele tivesse telefonado e alguma outra moça atendeu na linha e ele perguntou por Luísa e quem atendeu foi Beatriz e ela não conhecia nenhuma Luísa, mas eles poderiam se conhecer. Sentia ciúmes. Sentia ausência e vontade de estar perto e de se permitir estar perto e tantos outros es. E não aguentava mais. E andou, até suas pernas começarem a doer e ela perceber que estava quase correndo. E parou, num café não tão longe da sua casa, o que a fez perceber que ela andou muito, mas em círculos, típico. Entrou, sentou na mesa do canto, com a iluminação mais fraca, um pouco distante do balcão. E o garçom foi até ela e ela desejou que ele fizesse qualquer coisa além de anotar o seu pedido. Pediu uma vodka e não tinha. Se rendeu ao velho expresso, grande e sem açúcar. E tirou da bolsa uma caneta e ficou riscando num guardanapo palavras soltas, sem nenhum sentido. Por uma fração de tempo, desejou ter cursado psicologia ou qualquer outra coisa que indicasse que aquelas palavras estavam ligadas ao subconsciente dela e então teriam algum sentido.
- Fracasso. Dúvida. Insensatez. Frio. Calor. Boca. Pele. Estudos. Guimarães Rosa. Proximidade. Dor. Contato. Você. Ele.
Eis o conjunto de palavras escritas, umas vertical, outras horizontalmente. Umas maiores que outras. Então Luísa, que não se chamava Luísa, conseguiu perceber que não precisava ter nenhum estudo na matéria para compreender que todas aquelas palavras não vinham do seu subconsciente, mas do consciente mais consciente de todos. Todas remetiam ao moço. E o café chegou e ela nem reparou, só deu por conta depois que o garçom perguntou se estava tudo bem. Não falou nada, só sorriu para ele, ele adivinhara seu desejo anterior com um pouco de atraso. Tomou o café a grandes goles e queimou levemente a língua no primeiro contato, o que a fez levar os dedos até os lábios e lembrou que a última pessoa que havia feito aquilo em sua frente havia sido o rapaz da ligação. Amaldiçoou o destino por ter feito dela tão covarde e dele tão pouco persistente. Continuou sentada por um tempo que sequer saberia mensurar, notou que era hora de ir quando viu os dois rapazes encostados no balcão encarando a tevê com cara de cansaço. Levantou-se, pagou e foi embora. Ficaria magoada se soubesse que estou lhes dizendo, mas chorou um pouco no caminho de volta pra casa. Fez o trajeto oposto. Andou um pouco mais, até suas pernas voltarem a doer e ela se render e pegar um táxi no caminho de volta e sentir seu intuito de "andar para desopilar" ser traído. O taxista parou duas quadras antes do prédio em que ela morava. Tinha calos, Luísa. Eram tantos. Culpava o passado até quando este não tinha e menor relação com o presente. E sentiu uma fraqueza tão forte que desceu e ficou ali, sentada no meio fio, torcendo para aquela sensação de impotência passar. Também não passou. Também não o tirou da cabeça. Mas estava tudo certo, estava tudo bem. Pela primeira vez na vida, as coisas pareciam estar no lugar, não tanto quanto deveriam, mas ainda assim. O telefone tocou e de sobressalto ela mexeu a bolsa com uma velocidade ímpar, era sua mãe. Ela rejeitou a ligação e chorou um tanto mais. Era sempre assim, importava pra ela. Importava tanto que o outro nem imaginava o mal que a tinha feito. E foi pra casa esperando que ele estivesse na porta a esperando e com um sorriso no rosto ao lhe chamar de malandra, ele a havia descoberto. Quando chegou, não havia ninguém na porta, nem nenhum sorriso, nem nenhum adjetivo, nada. Então abriu a fechadura e acendeu a luz, tudo como ela havia deixado, organizado e solitário, como se um ser vivo nunca tivesse passado por ali. Atirou-se na cama e sentiu como se a cama nunca tivesse sido tão grande. E fechou os olhos e pensou que nunca se sentiu tão cheia de espaços vagos. E ficou ali, revirando na cama, como que querendo que seu corpo tocasse em cada vazio daquele colchão. E ficou ali, revirando a mente, como que querendo que a lembrança do rapaz tocasse cada espaço vazio dentro dela. O telefonema nunca chegou.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Sem efeito
Sentiu o chão desaparecer no momento em que ouviu aquelas palavras. Toda aquela lembrança que guardava em si como se fosse a essência da sua vida, o que ela acreditou que fosse amor, acabara de ser diagnosticado como uma síndrome. E, como se ela estivesse vivendo uma mentira que se fazia real a cada dia, uma série de medicamentos faria dela vazia de novo. A solução não era mais uma garrafa de tequila e uma porção de amigos tentando convencê-la de que tudo ia acabar bem. Já nem bebia mais. Já havia descoberto que seus amigos não eram tão amigos quanto ela pensou que fossem. Sabe, bateu uma angústia estranha, uma incompletude tão completa. Percebeu que o sadismo do outro só fora alimentado porque ela e o seu masoquismo permitiram. Mas agora ela tinha um médico, que via tudo de fora e subestimava aquele sentimento sublime dando-lhe o título de transtorno emocional. Como a vontade de que existisse. Como o apego ao que lhe fazia mal. Até concordava, em partes, quanto a se apegar ao que lhe fazia mal. Ela queria sentir, não importava o que, não importava se não era algo bom, sentir fazia dela viva. O que ela seria agora? O que ela era de verdade. Sentiu-se humilhada. Como se todos fossem capazes de reparar que a única coisa que ela realmente amava era à idéia de amar. Era poético e bonito. E todos os grandes romances da história foram tristes. E todo grande amor só seria grande se fosse triste. O dela o era, especialmente. Mas o dela não era amor, era síndrome. Não conseguia chegar a um consenso quanto a qual das opções seria pior. Eram as que ela tinha e ambas lhe pareciam corretas. Talvez ele estivesse certo, ela era só mais uma melancólica e o afundava, não o médico, o moço. Talvez tudo que ela precisasse era de um par de anti-depressivos e alguém lhe avisando que aquilo a iria curar. E um dia cura, sempre cura. Seja amor ou seja doença. Quem é o mais doente de nós: o sádico ou o masoquista? Eu. De longe. Espero um dia aceitar a idéia de que tudo isso que eu estou passando agora e que eu já passei antes, todas as lágrimas que o travesseiro enxugou, foram porque eu sou louca, não apaixonada. Nunca irei. Ainda me resta orgulho. Mesmo pisado. Deixa eu me enganar. Deixa eu tentar ser normal. Só isso.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Tato, olfato, audição, visão e loucura.
O barulho das chaves dando a volta na fechadura arranca de uma delas um sorriso de canto de boca. Uma forma sutil de perguntar “o que tem pra hoje?”. Remete diretamente à Laranja Mecânica. À ultra violência. Aos tantos filmes, livros e segredos em comum daquelas duas. E à semelhança gritante existente entre elas, contrastando tanto com seus gestos calculados. A certeza da ausência de pudores desnecessários. Como se o mundo as temesse... e com motivos. O barulho dos saltos ecoa pelo corredor tão alto que não se escuta nada além. Em silêncio, as mulheres caminham lado a lado, sem destino certo e cheias de más intenções. Para elas, também a maldade é uma questão relativa. E também García Marquez concordava que moral era uma questão de tempo, não de valores. Sem trocas de palavras, ambas diminuem a velocidade dos seus passos também tão iguais, e se beijam. O barulho daquele silêncio eloqüente é suspenso pela voz de uma delas, que se dirige a um estranho, que por possuir suas mesmas e peculiares características retribui com um outro sorriso, mas com a mesma malícia. Também o estranho possui alguém que se assemelhe diretamente a ele. E, por uma questão não só de matemática, mas de instinto, os quatro se entendem tão bem quanto se fossem só um. Ou talvez até melhor do que com si próprios. Como que ligados por algum ímã, seus corpos tendem a se aproximar numa velocidade excepcional. O barulho baixo de algum disco de rock alternativo é rapidamente substituído por suspiros intensos e ordenados. Num outro cômodo, um som abafado de risos. Um cheiro de loucura e risco no ar. E há algo no mundo que desperte mais o desejo? Pode até haver, meus caros, mas se houver, todos eles desconhecem. E também não importa. As bocas com gosto de álcool e vontade não se largam por um segundo sequer, a certeza de que algo com aquela intensidade não acontece todos os dias aguça mais ainda o querer entre os quatro. O som parece cada vez mais distante e de repente não há barulho nenhum. Só tato. E se tocam e se sentem e sentem vontade de se aproximar ainda mais. A noite está acabando. Poucas horas, muita atração. Rapidamente agora se beijam, ele, ela, eles. Seus rostos inocentes agora indicam um outro subentendido desejo, o de não parar por ali. O bom senso chama. Sem mais delongas, sem entender muito bem, em passos rápidos, as duas vão embora, paralelamente. Tão paralelas quanto as vidas que carregam nas costas. Quanto os segredos que aquelas mentes preferem guardar numa área restrita e perspicaz dos seus cérebros. No dia seguinte, O barulho do despertador faz um deles acordar com gosto de ressaca na boca. Olha para os lados, não há mais ninguém ali. Nada mudou. Como se a noite anterior nunca tivesse acontecido. Ou se nada daquilo tivesse passado de um sonho psicodélico, desconexo, mas indubitavelmente fascinante... e ameaçador.
domingo, 3 de julho de 2011
Quanto à mesma balada do amor inabalável
“Ela tinha vontade de gritar para todo mundo justo aquilo que ela não se arriscava nem em pensar mais alto.”
O problema é que o mundo inteiro pra ela não passava de uma pessoa, daquela pessoa. Que sempre, havia tanto, ela tentava demonstrar o seu carinho e nunca havia conseguido. Por incompetência fosse dela ou de outrem, tudo em vão. A feracidade e velocidade com que o tempo passa ainda a assusta. Só não mais do que essa certeza de que ainda está aqui tudo que ela queria que não estivesse, e que não está aqui a única coisa que ela queria que estivesse. E machuca, ela olha pra baixo, levanta a cabeça e vê que não dá pra ir em frente. Nem pra voltar atrás. Nem sequer pra andar em círculos. Ela está apenas impotente e desnorteada. Não vai sair do lugar agora, tampouco depois. Precisa daquele apoio, justo aquele que já está muito à sua frente, que correu lado a lado com o tempo, que não se deixou ficar pra trás. Luísa tem motivos pra disfarçar o riso e desviar o olhar. Só não entende porque aquela pessoa que não gosta mais dela, pelo menos não como gostava antes, não consegue deixá-la ir embora. Prefere ficar alimentando nela uma ilusão que já lhe é permanente, que já se ampliaria sem precisar de outro impulso além do dela. Ouvir aquela voz ainda faz com que seu coração pareça que vai sair pela boca e por aquela boca saem palavras tão desconexas que fazem a pessoa do outro lado da linha sorrir e brincar. E aquele sorriso, aquele jeito doce à sua maneira, fazem com que Luísa transborde de alegria por um minuto. No outro, no que se sucede, que não há mais ninguém do outro lado, ela senta na sua cama, ainda encarando o celular e tem vontade de morrer. Seja de saudade, tristeza, ou amor.
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