Então o médico me perguntou:
- O que sentes?
E eu respondi:
- Sinto lonjuras, Doutor. Sofro de distâncias.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2012
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Meu little
“Pois amizade que é amizade
Íntima, rima com intimidade
Briga, mas querendo o bem
Combina com não ter fim
Aprende, ensina, o valor que o lance tem
Descongela aí, me aquece aqui!”
Eu estava ouvindo agora Zélia Duncan cantar “duas namoradas” e dizer que “uma fala sem parar e a outra nunca desliga”, não consegui lembrar-me de outra pessoa senão você. Dei continuidade ao meu momento de ócio e continuei a fazer a coisa que melhor faço: ficar sem fazer nada. Mas sabe que quando o som continuou, Zélia me lembrou também que “nem tudo que é sucesso se esquece” e BINGO (observe a ambigüidade dessa palavra), precisei escrever pra você. Fiquei lembrando aqui o tempão que faz que a gente não se vê, cara, o que é injustificável posto em pauta que moramos no mesmo continente. E constatei facilmente como e quanto eu te gosto. E também como mesmo eu não te dando paz e te obrigando a passar horas falando comigo ao telefone, você ainda assim faz falta. O ponto de equilíbrio entre eu e a Suzy, o separador oficial das nossas brigas, fora que nós, fiéis, precisamos de um pastor. Principalmente agora, que sabemos que nosso pastor ao voltar da cidade grande para o nosso pacato interior, virá transbordando conhecimentos adquiridos com o máximo de empirismo possível. Comova-se da nossa causa e venha nos ver, cara. Sabe que espaço tem de sobra, não só na casa e no coração, como diria Caio Fernando, e eu deixo a especificidade do “onde mais” para você, sábio pastor, poder idealizar suposições. HAHAHA Falta você, cara! Fico contente em saber que você ainda vai poder escutar “cajú” se eu gritar daqui, porque o laço que nos une ainda não foi separado e eu não vou deixar que seja. Mas vê se não esquece que a terceira idade juvenil está descompleta. Gal, Bethânia, Chico, Caetano e até Elba (eu me rendo!) não perdoariam tamanho crime intelectual: o seu lugar é pertinho da gente, com nossa rede, nosso terraço, nosso Alzheimer e nossas gargalhadas idiotas. Continuo morrendo de saudades a cada frase lida do Saramago e também continuo sendo dançarina, não largue o posto de funcionário. Um dia nosso horário vai combinar.
“No ano dois mil e um, se eu juntar algum, peço uma licença.
E a dançarina, enfim, já me jurou que faz um show pra mim.”
terça-feira, 30 de novembro de 2010
'Sossega, o amor não é para o teu bico.'
E o pior de tudo isso é saber que vai haver um dia onde você terá a certeza de que todo aquele suposto amor talvez não tenha passado da vontade de amar. Que todos aqueles momentos vividos não terão nenhum significado e que quando vocês se verem na rua, por acaso, talvez façam de conta que não se viram. Ou se vocês se falarem, vai ser aquela coisa morna, aquela falta de alguma coisa, aquele incômodo... Ou uma hipótese ainda pior: vocês vão conversar como bons amigos e verão que um não significa mais absolutamente nada para o outro. Boa sorte.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Pequenas Epifanias
"Miudinhas,
quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia." (Caio Fernando Abreu)
quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia." (Caio Fernando Abreu)
Primeiro veio a chuva. Eu estava sentada num banquinho da praça central quando começou, mas não me movi um só centímetro. Tinha saído do trabalho mais cedo naquele dia, ou melhor, naquela semana quase inteira. Minha cabeça estava superlotada de problemas, não bem problemas, mas idéias tortas, brutas, precisando de tempo e dedicação para lapidar e transformar em algo saudável. Conversei com Joseph, o meu chefe, pra repor as horas perdidas depois, expliquei por alto que precisava de um tempo pra mim e ele não discutiu. Então é onde eu volto para o início da questão: primeiro a chuva. Não, primeiro pegar a bolsa, sair da empresa, caminhar algumas ruas, olhando vitrines sem observar o que havia por trás delas, olhando pessoas sem o interesse ou atenção necessária para se imaginar o que haveria por trás dos seus sorrisos tortos e do encontro dos seus sapatos com o chão. Foi então que entrei na primeira livraria que me surgiu pelo caminho e procurei um livrete de auto-ajuda qualquer, para tentar ao menos clarear o vendaval de pensamentos que assolava meu cérebro. Mais uma vez volto ao início: agora, não primeiro, mas segundo, terceiro, quarto, sei lá... a seqüência dos fatos não importa: a chuva. Eu tinha parado naquele banquinho da praça com o intuito de dar uma folheada na minha mais nova aquisição material e tão logo sentei a chuva chegou. Então eu apenas continuei ali, quietinha. Coloquei o livrinho dentro da bolsa e fiquei sentada, sentindo a chuva cair no meu rosto e ensopar o meu suéter. Confesso que eu não havia reparado que o céu estava nublado antes, há tanto eu não parava para observar o céu, nem a lua, nem Vênus, nada. Cruzei as pernas, levantei o rosto e fiquei sentindo a água, como se ela fosse adentrar em meu corpo e quem sabe me dar um banho por dentro, levando de mim toda essa sujeira, pondo ordem em toda essa bagunça e levando nas ondas desse mar tudo que não mais me servia. E eu sorri. Continuei naquela chuva por muito tempo, e não me peça para definir o que é “muito”, pois eu sinceramente não tenho idéia de quantos minutos passei ali. Talvez pelo fato de eu ter aproveitado cada segundo e depositado todo o interesse e atenção que eu não dei às pessoas que passaram na rua à cada gota de chuva que caia sobre mim. E foi bom. E eu me senti tão mais leve, tão mais limpa. Abri os olhos e contemplei aquele cenário magnífico que se dispunha à minha frente naquele momento: a chuva, as folhas das árvores balançando, aquele barulho agradável, algumas pessoas passando rapidamente com seus guarda-chuvas, outras também passando rapidamente sem seus guarda-chuvas e ainda outras me olhando estranho como quem questionava o que eu estava fazendo ali. Eu tive vontade de sorrir para elas, mas não o fiz. Continuei calada, pensando e observando e achando que aquela talvez fosse a primeira epifania da minha vida. Foi então que ele veio, na verdade não veio, apenas passou como tantos outros. Mas um amor de outras vidas nunca passa por acaso, e eu poderia o reconhecer mesmo se estivesse vendada. Eu virei para poder olhá-lo melhor e dessa vez eu sorri. Ele sorriu de volta, sem jeito, e continuou andando.
- Hey!
- Eu?
- É.
Então ele veio. E trouxe consigo todas as certezas que me faltavam. Continuei sorrindo e ele sorrindo de volta, mas ainda sem jeito. Théo tirou os óculos e os segurou fora do rosto de forma engraçada, acho que sem saber ao certo de qual forma enxergaria mais nitidamente, e ao fazer isso eu me deparei com o par de olhos mais lindos e marcantes que eu vi durante toda a minha vida. Não dissemos nada um ao outro, apenas ficamos calados e foi como se o nosso silêncio e aquela chuva justificassem tudo que havia ali. Ficamos parados, imóveis, olhando a água cair, vez em quando um olhando o outro e desviando o olhar ao notar que o outro percebia, como duas crianças. Ele sorriu, dessa vez não sem jeito, e eu notei que era com ele que eu queria passar o resto dos meus dias. Contudo, não, eu não acredito em amor à primeira vista. Só que não foi à primeira vista, entende? Eu já o conhecia, ele também já me conhecia. Porém só numa tarde chuvosa como a de hoje o destino tratou de fazer nos encontrarmos. Talvez por algum motivo especial que eu desconheça, mas que tenha transformado esse encontro em algo único, mágico. Théo se levantou e perguntou:
- Você vem?
- Para onde?
- Não sei. E então, você vem?
Eu não precisei falar nada. Abri a bolsa, peguei meu livrete e deixei sob o banco. Levantei também e segurei na mão dele. E foi nesse momento que aconteceu a segunda epifania da minha vida. Saímos de mãos-dadas, sem rumo certo, sem saber ao menos de onde o outro veio, o que fazia, o que queria... Mas por que se preocupar com de onde o outro veio, o que fazia, o que queria se as pessoas são tão mutáveis e se o passado sempre fica para trás? Não importava. Nós só queríamos o presente, e o meu presente é tê-lo agora dormindo ao meu lado desde aquela tarde chuvosa. Olho pela janela e a chuva cai lá fora. Senti meu coração apertar e esta foi a terceira epifania da minha vida. Volto no tempo e penso se todas aquelas pessoas que passaram ao meu lado naquele dia tiveram a minha sorte e também encontraram o amor das suas vidas. Todavia um amor pra toda vida é coisa rara, principalmente quando é assim, quase à primeira vista. Ele acordou e acabou de me ver com cara de boba olhando pra chuva, colocou os óculos e beijou meu rosto. São em momentos como estes de agora que eu consigo “lavar” a minha mente de todo e qualquer pensamento não-lapidado e me encher de coisas boas, de um bem estar transbordante. Levanto dessa cama e Théo me pega pela mão.
- Vem cá comigo.
- Pra onde?
- Você vem?
- Pra onde?
- Não sei. Você vem?
Apenas sorri e ele me sorriu de volta, me levou pro meio da chuva, tirou os óculos agora ensopados da mesma forma como fez naquele dia e me beijou como se fosse a primeira vez. Aquela foi a quarta epifania da minha vida, mas aquele foi o primeiro, último e único homem no mundo que fez com que eu me sentisse como criança e sorrisse sem jeito mesmo depois de tanto tempo.
- E então, você vem?
- Vou.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Quinto Fragmento
Da Décima Terceira Voz
Tanto sangue dentro do meu derramado coração, era assim? Talvez fosse, mas não se trata disso. Lamúria insuportável, o corpo, esse que se arrasta com suas carências. Não precisa pressa, calma lá. A porteira está fechada para quem quiser passar, era isso? Já te disse que não responderei. Quero saber, e depois? Passaram-se meses, ele voltou. Foi longo. Doía. Continua doendo. Ainda não acabou. Passa, passará. Às vezes ficávamos deitados na minha cama enquanto eu tentava decifrar o seu destino. Marte, Ossanha gostava das folhas, das pedras. De peixes também. Ele me ensinou que as pedras eram vivas. Desde então eu as mantenho imersas em copos cheios d’água, para que cresçam. São muitas. Agora espero outro. Que como ele, não será mais do que Uma Nova Metáfora do Encontro. Por enquanto espio as pombas nas cumeeiras. Quando não há música, canto. Quando paro de cantar, como maçãs. Os talos estão jogados pelo quarto, entre os lençóis. Apodrecem como meus sentimentos, jogados na via-láctea. Esfrego a lâmpada, mas o gênio se foi. Talvez me bata outra vez contra as grades da janela até me levarem para a mesa de choques.
V. ISIS
Fiquei olhando os bombons caídos no chão, misturados aos cacos coloridos. Martha e Marília repetiam tanto que precisávamos economizar que me curvei para apanhá-los. Júlio esbarrou em mim, cravei um dos cacos na palma da mão esquerda. Quando consegui arrancá-lo percebi que era de um azul muito claro, cor do céu nas tardes de verão. Lambi o sangue que não estancava, manchando os bombons, os outros cacos. Ia enxugar o sangue na barra da saia quando vi o pano branco no chão, mas só depois de tê-lo enrolado nos dedos é que Marília gritou e percebi que era o seu bordado. Aquele inacabado, dos ramos de trigo, dos quatro cantos. Tarde demais, pensei. E sem querer pensei junto que, com as manchas de sangue, o trigo pareceria ter brotado num campo de papoulas. Lembrei em seguida das papoulas que Linda e eu costumávamos comprar no final da primavera. Desejei que hoje fosse outra vez como uma manhã de novembro, verão novo no ar, para que pudéssemos colocá-las, sobretudo as vermelhas, as papoulas por todos os cantos da casa, em vasos brancos.
Tive vontade de chorar quando pensei que o verão estava quase no fim, tive pena de mim mesma assim gorda, inícios de março, os cachorros loucos em volta da casa, jogada ali no chão da cozinha entre bombons esmagados, tábuas, pregos, cacos coloridos, sangue, Marcelo e Anais trancados nos quartos. Arthur no banheiro, Marília muito pálida à minha frente, braços cruzados sobre o peito, olhos fixos no pano que o sangue de minha mão encharcava cada vez mais. Ai o trigo, as papoulas, o bordado.
Para não chorar, por ter pensado na noite de março descendo clara sobre os telhados, pelos bombons esmagados, principalmente por meu medo, acho, para calar a fome de açúcar no fundo da garganta, foi que comecei a cantar. Devia estar patética e porca e triste jogada no chão, mas como se aprovasse que eu ainda não começara a fazer, Linda sorriu quando abri a boca. Sem que eu escolhesse, a canção
foi nascendo summertime2 sim eu repeti summertime and the living is easy. A voz a princípio fraca, desafinada, perseguindo uma melodia que escorregava entre os acordes repetidos do piano vindos da sala, mas aos poucos mais forte, nítida, para meu próprio espantofish are jumping and the cotton is high sufocando todos os outros sons. Pouco a pouco Marília, Raul, Júlio, Linda, Ricardo, Pedro, Martha, Virgínia sentaram-se à minha volta enquanto a noite descia, e quem sabe para tranqüilizá-los eu repetia e repetia one of these mornings e Marília fechou os olhos 1 will gonna rise up singing e Raul sorriu you’re gonna spread e Júlio apagou o cigarro your wings e Ricardo distendeu os músculos do rosto and you’ll take to the sky e Pedro fechou o livro but tili that morning e Martha tirou os óculos there’s nothing can harm you e Virgínia olhou para cima como se visse o céu with your mammy and daddy standing by e Linda então abriu devagarinho os braços começando a dançar enquanto todos batiam palmas ritmadamente e eu retomava a primeira parte da letra e todos cantávamos juntos tão alto e claro summertime summertime summertime tão completamente confiantes na manhã de sol próxima que não havia mais cães soltos nem xícaras quebradas ou bombons esmagados pelo chão.
Minha voz era maior que eu e mais forte que todos os demônios soltos pela casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer, cantaria cada vez mais alto até que Marcelo, Anais e Arthur viessem se reunir a nós como antigamente, e como antigamente Linda me abraçaria entrelaçando papoulas douradas nos meus cabelos, pedindo que cantasse mais. Como se estivesse grávida de um tempo novo, eu cantava. Mas tudo mudou. Linda começou a girar cada vez mais depressa. O que costumava ser doce em sua dança foi-se transformando numa espécie de fúria que fazia os outros baterem palmas cada vez mais rapidamente até que, dissociados, havia quatro planos, distintos, sonoros, dentro da cozinha, Os uivos dos cães, o piano na sala, os movimentos de Linda e minha canção cada vez mais esfarrapada. Comecei a cantar mais baixo. Até calar. E voltou a fome de açúcar. O sangue escorria da palma da mão. Levantei com dificuldade para procurar nos armários fechados outra caixa de bombons.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Sem blues, sem Ana
De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca – de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrima chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo na boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Encantador de serpentes
"Hoje aconteceu uma coisa engraçada, que atestou mais uma vez a minha incoerência comigo mesmo. Vivo imaginando que de repente vão aparecer fadas ou gênios na minha frente para perguntar o que eu desejo. Hoje pensei sério: se me perguntassem o que mais desejo na vida, não saberia responder. Quero tudo. Mas esse “tudo” é tão grande, tão vago, que me sinto estonteado. É preciso ir limitando meu sonho, apagando a linha supérflua, corrigindo as arestas, até restar somente o centro, o âmago, a essência. Mas qual será esse centro, meu Deus, que não encontro?
Sinto-me terrivelmente vazio. Há pouco estive chorando, sem saber exatamente por quê. À vezes odeio esta vida, estas paredes, essas caminhadas de casa para a aula, da aula para casa, esses diálogos vazios, odeio até este diário, que não existiria se eu não me sentisse tão só. O que eu queria mesmo era um ombro amigo onde pudesse encostar a cabeça, uma mão passando na minha testa, uma outra mão perdida dentro da minha. O que eu queria era alguém que me recolhesse como um menino desorientado numa noite de tempestade, me colocasse numa cama quente e fofa, me desse um chá de laranjeira e me contasse uma história. Uma história longa sobre um menino só e triste que achou, uma vez, durante uma noite de tempestade, alguém que cuidasse dele. Uma história longa sobre um menino só e triste que achou, uma vez, durante uma noite de tempestade, alguém que cuidasse dele.
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