Já era madrugada quando ela decidiu sair pra comprar uma carteira de cigarros. A menina, que não era fumante, se encontrava tão desesperada em busca de respostas que não conseguiu pensar em nada mais esperto a se fazer. Na volta para casa, constatou que as puxadas rápidas e sem jeito que dava naquelas maquinazinhas de destruir pulmões não serviriam de muita coisa. Mas Luísa tinha dessas, vez ou outra. Na ânsia de descobrir uma saída de si própria, encontrava várias outras portas que não davam em lugar algum. Não sabia o que tinha, eis o que mais a intrigava. Após 24 horas da mais pura - e sufocantemente doce - solidão, ela precisava trocar o pijama, por aquele vestido estampado e tentar mudar as coisas. Aquela inércia a tirava o fôlego. A ideia de algo (até então desconhecido, mas indiscutivelmente seu) errado, era desconfortável. Naquela terça-feira, Luísa ficou na cama até quase quatro da tarde. Ponderando o que poderia fazer. Tentando, primordialmente, constatar o que havia a se mudar. O que havia. Virava de um lado para outro como se, ao mudar de posição, as coisas fossem dar uma clareada. Angústia. Era isso, achava. Não, não achava. Isso que a angustiava. Deveria estar em ordem, mas não estava. Levantou e perdeu a conta de quanto tempo passou debaixo do chuveiro, tentando esfriar a cabeça, o coração. Tudo parecia arder. A comida não passava à garganta. Queria um abraço. Ninguém. E tentou chorar, mas se não haviam motivos, não haveriam, consequentemente, lágrimas a se botar para fora. Desejou ser mais mulherzinha. Em vão. Tão em vão quanto achar que encontraria alguma resposta naquele rolinho de ervas secas que queimavam entre seus dedos. Esquecer, de si, de tudo, talvez fosse a saída. Ou só seria outra empreitada em busca de uma saída inexistente? De volta ao apartamento, jogou as chaves sob a mesa, os cigarros também, atirou-se sob a cama, junto as suas dores remotamente injustificáveis e ficou ali, inerte, esperando seus pensamentos pararem aquele movimento incessante. Não dormiu. Mas sonhou, ainda assim. Com o dia que finalmente encontraria sua paz. Não hoje.
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Let it bleed
Olha, hoje eu resolvi tentar deixar sangrar tudo de uma vez e acho engraçado você estar aqui pra sangrar comigo. Não que eu goste de te ver sofrer, eu não gosto, não me entenda mal, por favor. Pelo contrário. Eu te acho uma pessoa tão bonita, sabia? Por mais que você tenha a mesma mania feia que eu, de sempre se culpar por tudo, de sempre deixar o pessimismo e o masoquismo tomarem de conta. Você é admirável. Mas é que tá doendo tanto aqui, desse lado, e também vejo que do outro lado, do seu lado, dói, e eu me sinto compreendida. Ao menos você. E então aquela ideia base de botar um sorriso no rosto e tentar ficar bem vai pelo ralo, depois que a gente decide parar para ler aquele trecho daquele livro. Depois que a gente decide parar para confirmar que ficar bem é só a premissa pra ficar pior depois. E quanto mais eu tento me convencer de que não devo pensar assim, mas a vida chega com aquele aviso sutil de que é hora de acordar. Como se eu precisasse de um despertador a cada minuto do meu dia, lembrando-me que não devo sonhar tanto, que isso é aqui é a realidade, e a realidade é feia e feita pra sangrar. Espero estancar, mas não é hora. É hora de lembrar que algumas pessoas nascem para ser assim, complicadas, e que eu sou uma destas. Que não dá pra fugir. Que fugir é só ilusão, porque eu vou ser pega. Nem adianta ficar aqui brincando de mocinha madura, dizendo que é só me dar tempo, que é só deixar as coisas tomarem seu lugar, que é só tentar ficar bem até eu me por em ordem... Eu nunca estou em ordem. Ninguém está. Eu, especialmente. Nem você. Mas aí aquela sensação de impotência por não ser capaz de te ajudar começa a pesar ainda mais. Porque, no fim das contas, eu me vejo em você. Talvez, agora ainda mais que das outras vezes. Porque você passou por situações tão negativas quanto eu e isso aproxima as pessoas. Eu sei que ainda dá pra aguentar. Por isso que eu repito tanto que é hora de ser forte. Sejamos fortes. Pode até chorar, mas ergue a cabeça, amiga. Eu preciso de você forte pra continuar conseguindo segurar as pontas aqui do outro lado também. Não choro mais, embora tente. E ainda assim eu me desespero, eu fico perdida, tentando te ajudar pra ver se me ajudo também, sem sucesso em nenhuma empreitada. Então, de repente, a gente já tá junta de novo, falando que tudo que acontece agora é por culpa de uma conduta errada que nós tivemos anteriormente. Mesmo quando não há interligação alguma. É que bate uma tristeza em assumir que tudo que acontece agora é pelo que somos no momento em que não fazemos nada para mudar, além de nos queixarmos. Não muda. Nem resolve. E nem sei se precisa resolver, pra ser sincera. Até porque essa insatisfação crônica pode ser justamente o estágio de normalidade que tanto lutamos para alcançar. De que adiantam todas as promessas feitas no dia anterior, se hoje, depois de duas frases, todas as certezas despencaram do mesmo abismo que eu me encontro agora? Deixa doer. Deixa sangrar. Um dia o sangue esgota e nós voltamos a tão sonhada estaca zero.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Unhappy three friends
Era engraçado. Luísa sempre foi uma menina diferente das demais. Tinha aquele ar de arrogância peculiar das meninas complicadas. Sorria sempre de canto de boca, como que pra demonstrar uma superioridade que nem ela mesma sabia se tinha, mas que a confortava. Acostumou-se desde cedo a conviver com a solidão, sua única verdadeira companhia. Até então. Foi quando encontrou seu primeiro amor. Garotos? Não, Luísa não era do tipo que deixaria seu mundo virar ao avesso por causa de um envolvimento emocional qualquer. Sua primeira amiga. Virou parte de si própria. Isadora trazia Luísa à vida quando, nas suas diárias crises existenciais, ela pensava em deixar tudo de lado e jogar pra cima o pouco que possuía. E, por mais que doesse, acalmava-se por saber que, no meio da noite, no meio de um choro qualquer, aquela voz sonolenta do outro lado da linha iria dizer que as coisas iam ficar bem, que aquela pessoa que fazia de tudo por ela, também a ajudaria a segurar as pontas até que recuperasse sua habitual força para lidar com seus habituais problemas. Virou hábito. Passou a habitar, inclusive, um espaço enorme na casa e na menina. Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares... as duas continuavam as mesmas, até pelo pacto que haviam feito, depois de tantos segredos compartilhados e histórias para contar aos netos. Não foram poucos os dissabores que Isadora tomou como teus. Os dias, generosos, resolveram presentar Luísa mais uma vez. Na nova cidade, entre os novos rostos, talvez com um pouco de atraso, eis que a menina de nome sugestivo apareceu para dar mais cor àquele outro céu. Elis, numa proporção que batia de frente com o tempo, encantou a menina. Talvez por compartilhar das mesmas dores, dos mesmos medos. Ambas sofriam. Inicialmente, não caladas. Contudo, devido às diversas tentativas de fazerem as coisas certas e ao indiscutível sucesso em não conseguir realizar esta façanha, calaram. Preferiam ouvir. Evitar falar, para ver se assim não ouviriam um “eu te avisei” mais à frente, que de nada adiantava, mas que já se fazia costumeiro. As duas erravam. As duas começaram a encarar seus erros com mais tranquilidade e calmaria, pois não eram as únicas, e àquela altura do campeonato, não estar sozinha no barco já era uma vitória. Reuniram-se as três e viram o quanto tinham em comum. O cômico era que a dor as havia unido. E era justamente esta dor que ia embora depois de cada conversa, de cada bebida, de cada loucura, de cada um dos detalhes mínimos que começaram a fazer toda a diferença. Então Luísa ria. As três meninas erradas, errantes, agora tão mais maduras e tão mais completas, estavam crescendo. Por mais que o presente doesse, haviam chegado ao consenso de que as coisas seriam mais bonitas no futuro. E se não fossem? Ah, se não fossem elas continuariam se reunindo para seus vinhos na madrugada, para seus planos de organizar massacres em conjunto, ou para dominar o mundo. Até porque, com aquelas três juntas, nem o diabo podia... AVALIE, essa coisa pequena e mesquinha, a vida!
Drama queens
"Amiga, eu gosto de ti porque é contigo que eu aprendo a ser ainda mais dramática. E olhe que era uma coisa que eu nunca achei que seria capaz."
Da coisa mais bonitinha que eu li no dia do amigo. :)
Thanks for everything, baby!
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