sábado, 18 de agosto de 2012

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Dark side of the Rainbow

Era daquelas meninas-sínteses, mal do século, resultado das quebradas de cara anteriores, quase genéricas no ano em que estamos. Das que muito sabem - ou fingem saber - dos outros, enquanto, de si, sabem pouco ou nada. E ela, exatamente neste molde, não sabia sequer se sabia. Mas, mesmo dentro da sua generalidade, era peculiar. Possuía duas características que lhe diferiam das demais: coragem e ousadia. E como era ousada, quando empinava o nariz e saia toda arrumadinha e independente por aí, sem precisar de ninguém nem de nada, só dos seus passinhos apressados dentro dos sapatos vermelhos. Uns fones com o Dark side of the Moon eram suficientes para a fazerem se sentir a Dorothy. E era corajosa cada vez que sentia seus problemas menores do que o que realmente eram, mesmo que alguma parte dela gritasse incansavelmente que ela não estava preparada para enfrentar nada. Estaria. Sempre estava. Minha Dorothy não era do tipo que se entregava fácil. Era do tipo que sabia que, mesmo que não resolvesse, aquela velha dose de vodka na beira da lagoa a faria se sentir melhor e boa o bastante para tentar de novo. E tentava. Também incansavelmente. E podia até se machucar a cada queda, que ainda iria se reerguer. Nem que fosse pra cair de novo. Qualquer segundo em pé já seria melhor que outro no chão. Não passaria a vida esperando alguém chegar para levantá-la, tinha pernas para isso. E recebia críticas, dos poucos que tinha. Cada um tentando, do seu modo, colocar um pouquinho de juízo na cabeça da menina inconsequente que media as consequências, paradoxalmente esperta ou ingênua. Duvidava acreditando em si. E tinha frases perfeitas, que encaixavam perfeitamente dentro de toda e qualquer história que alguma de suas amigas - também genéricas - contavam. Entendia. Já tinha doído aquilo em si. Mas, quando a dor passava, aquilo tudo parecia ter sido lido em algum lugar, as cicatrizes se esvaiam. Não tinha mais medo de arriscar, talvez por não ter nada a perder. Então aumentava o volume em Brain Damage e seguia aquela estrada de tijolos amarelos, por enquanto não tão clara quanto ela queria, mas que seria a única capaz de levá-la a algum lugar.  

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Talvez, tal vez, aquela vez...

"Se você hesita é porque pensa a respeito, nem que seja por um segundo. 
Se pensa a respeito é porque existe uma chance."

domingo, 5 de agosto de 2012

Contrapartida

Luísa era especialmente nostálgica aos domingos. Neste domingo, fora ainda mais que nos outros. Nos últimos dias havia sido tomada por uma sensação indescritível e indiscutivelmente incômoda. Sentia-se fugindo de si, ao buscar algo que estava aquém, mas que lhe era indispensável. E doía essa ausência do desconhecido. Esta necessidade. Para ela, "precisar" sempre foi a palavra mais forte de todas, maior que qualquer amor ou qualquer ódio. Indicava dependência. Dependência a assustava. Dizia-lhe o dicionário que depender era estar subordinado, estar sujeito. Na prática era ainda pior. O que poderia ser mais preocupante que estar subordinada e sujeita a algo que não conseguia sequer descobrir o que era? Havia passado uns bons dias buscando respostas incessantemente, sem encontrar nada que lhe fosse válido. Andava em círculos. Como se a cada uma das vezes que julgasse estar perto da descoberta da sua vida, perdesse o equilíbrio e caísse exatamente do lado oposto. E achou uma razão, duas, três... nenhuma foi capaz de convencê-la. Virava doses como água, na esperança que o álcool a fizesse desfocar o pensamento, mas o efeito era inverso. Luísa esquecia de tudo, lembrava apenas do que tentava fugir: da dúvida. E esta dúvida que a consumia não tão silenciosamente quanto ela desejava, a estava destruindo vorazmente. Sentia-se letárgica. De uma morbidez que causava pena. E dentro das suas diversas horas de sono, um sonho, feito um presente, foi capaz de abrir seus olhos para tudo que a rodeava e para aquilo que rodava tanto dentro de si própria. Luísa sabia da sua aflição. Sabia de si. Mesmo que não dependesse apenas dela colocar as coisas em ordem, aquela informação causou na menina uma profunda paz. Como se aquela tempestade que imaginara pouco antes, não passasse de uma garoa que, mesmo sendo levemente irritante, seria fácil de contornar, bastava apenas focar no que importava. Aquilo era secundário. Passou dias entregue a uma dor baseada no secundário. Algo dentro dela tentava se manifestar, fosse em forma de raiva ou de calma. Mas agora tinha o controle, tomara as rédeas de novo, era toda calmaria. Bastava querer. E queria. E nada causaria em Luísa um alívio maior que ter o controle. Saber onde estava pisando era maravilhoso. De resto, continuaria a levar seus dias como uma partida de xadrez. Tentando prever as próximas três jogadas, estrategicamente traçando seu próprio destino. Nem se importava que as circunstâncias não estivessem a seu favor, ela estava, só precisava de si, só dependia de si. E era toda dela. Luísa havia voltado. Desta vez, feliz.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Conversa de botequim

- Sabe, talvez esse tempo, essa situação meio comum e meio inusitada, essa incerteza, tudo isso, esteja servindo para eu começar a enxergar a minha vida sob outro prisma.
- Qual?
- Não sei. Mas eu posso sentir que a chance tá aqui, mesmo que eu ainda não a tenha alcançado.
- E por que não começa, sei lá, a tentar agarrar isso?
- Eu tentei outras vezes. Tenho medo de escorregar de novo. Eu só torço para que, um dia, eu possa levar uma vida normal, como as outras pessoas parecem ter. Que esse nó na garganta se desfaça, de um jeito ou de outro. Só torço por isso. Que ser instável deixe de ser meu estado de estabilidade.
- Um dia chega.
- Não consigo ser tão otimista.
- Eu gosto de ter esperança.
- Já me frustei demais. Esperança é o primeiro passo pra quebrar a cara.
- Eu sou frustrada demais. Se não me apegar à ideia de que as coisas vão melhorar, de algum jeito, algum dia, eu me jogo na frente de um caminhão ainda amanhã.
- Não tá tão tarde, o próximo ônibus passa daqui a meia hora, topa?
- Engraçadinha.